NATU3 — Natura Cosméticos
NATU3 a 0,95× PL e 8,45× EV/EBITDA após cair 21% em 12m, mas com prejuízo LTM de R$ 2,3 bi e aluguel dobrando (+99% em 63d, taxa no percentil 98,7) — múltiplo barato, turnaround ainda sem caixa.
NATU3 — Natura Cosméticos
1. A empresa
Natura Cosméticos S.A. (NATU3, Novo Mercado) é a operação brasileira de produtos de uso pessoal do grupo, com controle privado da família Passos (Pedro Luiz Barreiros Passos e vinculados, via holdings, com 38,8% do capital votante pelo bloco de controle+acordo) e free float de ~61%. Papel fora do Ibovespa na carteira vigente. Capital 100% ON: 837,2 milhões de ações emitidas, sem classe PN. Entre os relevantes de mercado aparecem Dynamo (8,84%), Pzena (5,37%), Aikya (5,11%) e Baillie Gifford (5,06%) — base acionária pulverizada e institucional-heavy.
| Acionista relevante | % ON | Natureza |
|---|---|---|
| Bloco de controle (família Passos + acordo) | 38,81 | Controlador |
| Dynamo | 8,84 | Gestora |
| Pzena Investment Mgmt | 5,37 | Gestora (EUA) |
| Aikya Investment Mgmt | 5,11 | Gestora (UK) |
| Baillie Gifford | 5,06 | Gestora (Escócia) |
| Free float aprox. | 61,19 | Mercado |
2. Preço & desempenho
Doze meses de montanha-russa: o papel saiu de ~R$ 10,80 (jul/25), afundou até a mínima de R$ 7,13 no fim de 2025, recuperou para a casa dos R$ 10,50 em maio/26 e desabou de novo após o resultado do 1T26 e a reclassificação da Avon, fechando 02/07 a R$ 8,24. Nos últimos 90 dias o desenho é claramente de baixa (de R$ 10,36 para R$ 8,24), com repique nos últimos 5 pregões (+9,9%).
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Retorno 5d | +9,9% |
| Retorno 21d | −12,8% |
| Retorno 63d | −7,1% |
| Retorno 126d | +18,7% |
| Retorno 252d | −21,1% |
| YTD | +15,2% |
| Máx/mín 52s | R$ 11,30 / R$ 7,13 |
| Distância da máxima | −24,1% |
| Drawdown vs pico | −22,4% |
| Vol. realizada 21d/252d | 52,0% / 48,3% a.a. |
| Beta vs IBOV (252d) | 1,25 |
| ADTV 21d | R$ 132 mi |
Volatilidade alta (52% anualizada em 21d) e beta 1,25 — papel de alta sensibilidade ao índice e a fluxo. Liquidez confortável: ADTV de R$ 92–132 mi, percentil 90 do mercado; ordens de até R$ 1 mi são operáveis com folga (1,1% do ADTV).
3. Resultados (5 anos)
| R$ bi | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Receita líq. | 20,7 | 20,2 | 14,9 | 21,3 | 21,8 |
| EBITDA | 3,63 | 3,08 | 2,54 | 2,29 | 2,23 |
| Margem EBITDA | 17,5% | 15,3% | 17,0% | 10,8% | 10,2% |
| Lucro líq. | 0,93 | 0,12 | 6,44 | 0,76 | −1,79 |
| ROE | 12,0% | 2,1% | 68,7% | 8,3% | −13,8% |
| Dív. líq./EBITDA | 1,5× | 1,8× | 0,4× | 0,3× | 2,1× |
A trajetória conta a história do grupo pós-fusão e da reorganização com a Avon. O lucro de R$ 6,4 bi em 2023 é contábil/não-recorrente (efeitos de reestruturação e fiscais — ROE de 68% é artefato, não geração operacional). O que importa na tendência é a margem EBITDA em queda constante: de 17,5% (2021) para 10,2% (2025), com lucro líquido virando prejuízo de R$ 1,79 bi em 2025. A alavancagem voltou a subir para 2,1× dív. líq./EBITDA. O 1T26 reforça o alerta: receita de R$ 4,7 bi (−1,9% a/a), margem EBITDA de 7,3% (−790 bps a/a) e prejuízo de R$ 445 mi, impactado pela marcação a mercado da dívida em USD. FCO de 2025 já foi negativo (−R$ 115 mi).
4. Valuation — múltiplos & DCF
| Múltiplo | NATU3 | Leitura |
|---|---|---|
| P/VP | 0,95× | Abaixo do valor patrimonial |
| EV/EBITDA | 8,45× | Neutro p/ consumo |
| P/L | n.a. | Prejuízo LTM |
| ROE LTM | −18,7% | Destrói valor no momento |
| Earnings yield | −19,6% | Negativo |
DCF não foi possível de forma responsável. O fluxo de caixa operacional da Natura é estruturalmente instável e recentemente negativo (FCO 2025 = −R$ 115 mi; prejuízo LTM de R$ 2,3 bi), o que torna um FCF base normalizado e uma perpetuidade de Gordon sem sentido econômico — qualquer número seria fabricado. Seguindo a regra da casa, o valuation fica ancorado nos múltiplos: a R$ 8,24 o papel vale 0,95× o PL e 8,45× EV/EBITDA. O P/VP abaixo de 1 embute a expectativa de que o turnaround pós-Avon não entregue ROE positivo tão cedo — é um múltiplo de distress/reestruturação, não de barganha óbvia. O setor "Produtos de Uso Pessoal" na B3 é raso (só micro-caps e nomes em RJ como pares diretos), então a referência de múltiplo é o próprio histórico da empresa e o consumo não-cíclico em geral. Estimativa com base em dados CVM/B3; não é recomendação.
5. Proventos
Sem distribuição de proventos relevante nos últimos 12 meses — coerente com prejuízo e caixa pressionado. Não há calendário de dividendos futuro registrado. Para um papel que hoje é caso de reestruturação, o retorno ao acionista depende primeiro da volta à geração de caixa, não de dividendo. DY praticamente nulo vs CDI de 14,15%.
6. Fluxo de players (12 meses vs 3 meses)
A leitura mais interessante do dossiê está aqui: quem carregou o papel nos 12 meses (dominado por Mirae, Itaú, Morgan e Merrill do lado comprador; Goldman e BTG vendedores) mudou de mão nos últimos 3 meses. Merrill e BTG viraram os maiores acumuladores líquidos recentes, enquanto Goldman, Mirae e UBS passaram a distribuir.
| 12 meses — Acumuladores | Net R$ mi | Persist. |
|---|---|---|
| Mirae | +170 | 53,6% |
| Itaú | +104 | 53,2% |
| Morgan Stanley | +121 | 41,6% |
| Merrill | +78 | 48,4% |
| BGC | +60 | 52,8% |
| Safra | +48 | 50,4% |
| 12 meses — Distribuidores | Net R$ mi | Persist. |
|---|---|---|
| Goldman | −140 | 40,0% |
| BTG | −111 | 57,6% |
| JP Morgan | −77 | 52,0% |
| Ágora | −92 | 45,2% |
| Citigroup | −60 | 48,6% |
| Ideal | −31 | 46,2% |
| 3 meses — Acumuladores | Net R$ mi | Persist. |
|---|---|---|
| Merrill | +177 | 65,1% |
| BTG | +106 | 55,6% |
| Necton | +24 | 54,0% |
| BGC | +18 | 61,9% |
| Santander | +21 | 55,6% |
| Morgan Stanley | +21 | 54,0% |
| 3 meses — Distribuidores | Net R$ mi | Persist. |
|---|---|---|
| Goldman | −104 | 39,7% |
| Mirae | −99 | 41,3% |
| UBS | −93 | 39,7% |
| XP | −40 | 44,4% |
| Citigroup | −38 | 37,7% |
| Ideal | −24 | 38,1% |
Emparelhando com o preço: a rotação comprador (BTG/Merrill) aconteceu justamente na queda de R$ 10,50 para R$ 8,24 — acúmulo em preço deprimido, com alta persistência (BTG 55,6%, Merrill 65,1%). Do outro lado, UBS distribuindo forte nos 3 meses é o contraponto vendedor a acompanhar.
7. Derivativos — Opções
A volatilidade implícita disparou: IV ATM de 61,8%, no topo absoluto da janela de 63 pregões (rank 100) e percentil 96 em 252 dias, pagando ~10 pp acima da vol realizada. O put/call ratio está pesadíssimo — 12,8 por volume e 2,69 por posição em aberto, ambos em percentis altos (84/71). Tradução: muito mais put do que call, hedge/viés de baixa dominando o book de opções. O OI de put (20,9 mi) é quase 3× o de call (7,8 mi). É o retrato de um mercado comprando proteção contra continuação da queda.
8. Derivativos — Aluguel (BTB) & Termo
Este é o sinal mais forte do relatório. O estoque de aluguel saltou +17,9% em 5 dias, +77,3% em 21 e +99,5% em 63 pregões — quase dobrou. A taxa de tomador está em 75,8% a.a., no percentil 98,7 dos últimos 18 meses: quem está shorteando está pagando caro para fazê-lo, o que denota convicção vendedora. Short interest de 15,8% do free float e days-to-cover de 8,6 dias montam a faca de dois gumes: pressão vendedora estrutural, mas também combustível para um short squeeze se aparecer um gatilho positivo (o repique de +9,9% em 5 dias é um aperitivo do que pode acontecer). Termo é irrelevante (145 contratos, R$ 5 mi).
9. Liquidez & risco
ADTV de R$ 92 mi na janela de 252 pregões (R$ 132 mi nos últimos 21), posição 54 de 537 ações, percentil 90 de liquidez. Ordem de R$ 1 mi = 1,1% do ADTV (operável com cautela); R$ 5 mi já vira alto impacto (5,4%). Papel líquido o suficiente para posição institucional relevante, mas a volatilidade de 52% exige dimensionamento.
10. Governança & partes relacionadas (CVM 44)
Movimentação de insiders no período foi modesta e mista: um Conselheiro vendeu 100 mil ações a R$ 10,06 (R$ 1,0 mi) em 21/05 — única venda a mercado relevante nos 12 meses. As demais entradas em VLMO são administrativas (opções, subscrição, créditos a R$ 0,01). Red-flag a monitorar: volume expressivo de transações com partes relacionadas — reembolsos de custos compartilhados com Avon Cosmetics (R$ 355 mi + R$ 164 mi) e Natura &Co Holding (R$ 34 mi), além de mútuos intragrupo a SOFR+3% a SOFR+5,55% (Natura &Co Luxembourg R$ 322 mi, UK Holdings R$ 266 mi). São operações declaradas como a preço de custo/mercado, mas o volume de fluxo financeiro para o grupo controlador é material e merece leitura atenta em quem investe na NATU3 isolada. Auditor: Deloitte (asseguração do Relato Integrado 2025).
11. Fatos, agenda & notícias
Fato mais quente é de hoje (02/07): a Advent (via Lotus FIP) declarou participação relevante de 6,6% do capital (90,7 mi de ações) mais exposição econômica adicional de 1,4% via derivativos (TRS) — movimento de um private equity entrando no papel em meio à queda, potencial catalisador de tese de reestruturação/M&A. Antes disso, Baillie Gifford havia cruzado 5,06% (abr/26). Agenda à frente: ITR do 2T26 em 10/08, informe de governança (CGVN) em 29/07. O 1T26 (prejuízo de R$ 445 mi, reclassificação de Avon International/Rússia/CARD como ativos para venda) segue sendo o driver fundamental recente.
12. Contexto macro
Pano de fundo pouco favorável a consumo discricionário e a balanços alavancados: Selic meta em 14,25% (Focus projeta 14,0%), CDI a 14,15%, IPCA 12m a 4,72% e curva de juros longa a 14,5% (Tesouro 10a). USDBRL a R$ 5,19. Para a Natura, os dois vetores macro que mais pesam são (i) o câmbio, dado o endividamento e mútuos em USD (SOFR+ e marcação a mercado que derrubou o 1T26), e (ii) o juro alto, que encarece a dívida (dív. líq./EBITDA 2,1×) e pressiona o consumo. Desemprego em queda (5,6%) é o contraponto positivo pelo lado da demanda.
13. Síntese
Riscos: balanço no vermelho (prejuízo LTM R$ 2,3 bi, FCO negativo, margem EBITDA em queda para 10%); aluguel dobrando e taxa no topo histórico (98,7 percentil) = convicção vendedora institucional; PCR de opções extremo com puts caras; exposição cambial via dívida USD num real a 5,19; volume material de partes relacionadas com o grupo controlador; papel fora do Ibov.
Referência factual (não é recomendação): a R$ 8,24, NATU3 é uma aposta binária em turnaround — quem compra o P/VP<1 aposta na recuperação da geração de caixa e na tese Advent; quem está no aluguel aposta que o vermelho continua. O DCF não sustenta valor no fluxo atual; a decisão é sobre execução, não sobre múltiplo barato.