NATU3 — Natura Cosméticos

NATU3 a 0,95× PL e 8,45× EV/EBITDA após cair 21% em 12m, mas com prejuízo LTM de R$ 2,3 bi e aluguel dobrando (+99% em 63d, taxa no percentil 98,7) — múltiplo barato, turnaround ainda sem caixa.

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Insights

NATU3 — Natura Cosméticos

02/07/2026
Fechamento (02/07)
R$ 8,24
−1,7% no dia
Market cap
R$ 11,8 bi
P/VP
0,95×
EV/EBITDA
8,45×
ROE LTM
−18,7%
Retorno 12m
−21,1%
Short interest
15,8% FF
Taxa aluguel
75,8% a.a.
Tese em uma linha. Natura negocia a 0,95× o patrimônio e 8,45× EV/EBITDA depois de cair 21% em 12 meses, mas o balanço segue no vermelho (prejuízo LTM de R$ 2,3 bi, FCO negativo) e a mesa está montando uma pressão vendedora agressiva — o estoque de aluguel praticamente dobrou em 3 meses e a taxa foi ao topo histórico. O múltiplo é barato; a execução do turnaround pós-Avon é que ainda não apareceu no caixa.

1. A empresa

Natura Cosméticos S.A. (NATU3, Novo Mercado) é a operação brasileira de produtos de uso pessoal do grupo, com controle privado da família Passos (Pedro Luiz Barreiros Passos e vinculados, via holdings, com 38,8% do capital votante pelo bloco de controle+acordo) e free float de ~61%. Papel fora do Ibovespa na carteira vigente. Capital 100% ON: 837,2 milhões de ações emitidas, sem classe PN. Entre os relevantes de mercado aparecem Dynamo (8,84%), Pzena (5,37%), Aikya (5,11%) e Baillie Gifford (5,06%) — base acionária pulverizada e institucional-heavy.

Acionista relevante% ONNatureza
Bloco de controle (família Passos + acordo)38,81Controlador
Dynamo8,84Gestora
Pzena Investment Mgmt5,37Gestora (EUA)
Aikya Investment Mgmt5,11Gestora (UK)
Baillie Gifford5,06Gestora (Escócia)
Free float aprox.61,19Mercado

2. Preço & desempenho

Doze meses de montanha-russa: o papel saiu de ~R$ 10,80 (jul/25), afundou até a mínima de R$ 7,13 no fim de 2025, recuperou para a casa dos R$ 10,50 em maio/26 e desabou de novo após o resultado do 1T26 e a reclassificação da Avon, fechando 02/07 a R$ 8,24. Nos últimos 90 dias o desenho é claramente de baixa (de R$ 10,36 para R$ 8,24), com repique nos últimos 5 pregões (+9,9%).

MétricaValor
Retorno 5d+9,9%
Retorno 21d−12,8%
Retorno 63d−7,1%
Retorno 126d+18,7%
Retorno 252d−21,1%
YTD+15,2%
Máx/mín 52sR$ 11,30 / R$ 7,13
Distância da máxima−24,1%
Drawdown vs pico−22,4%
Vol. realizada 21d/252d52,0% / 48,3% a.a.
Beta vs IBOV (252d)1,25
ADTV 21dR$ 132 mi

Volatilidade alta (52% anualizada em 21d) e beta 1,25 — papel de alta sensibilidade ao índice e a fluxo. Liquidez confortável: ADTV de R$ 92–132 mi, percentil 90 do mercado; ordens de até R$ 1 mi são operáveis com folga (1,1% do ADTV).

3. Resultados (5 anos)

R$ bi20212022202320242025
Receita líq.20,720,214,921,321,8
EBITDA3,633,082,542,292,23
Margem EBITDA17,5%15,3%17,0%10,8%10,2%
Lucro líq.0,930,126,440,76−1,79
ROE12,0%2,1%68,7%8,3%−13,8%
Dív. líq./EBITDA1,5×1,8×0,4×0,3×2,1×

A trajetória conta a história do grupo pós-fusão e da reorganização com a Avon. O lucro de R$ 6,4 bi em 2023 é contábil/não-recorrente (efeitos de reestruturação e fiscais — ROE de 68% é artefato, não geração operacional). O que importa na tendência é a margem EBITDA em queda constante: de 17,5% (2021) para 10,2% (2025), com lucro líquido virando prejuízo de R$ 1,79 bi em 2025. A alavancagem voltou a subir para 2,1× dív. líq./EBITDA. O 1T26 reforça o alerta: receita de R$ 4,7 bi (−1,9% a/a), margem EBITDA de 7,3% (−790 bps a/a) e prejuízo de R$ 445 mi, impactado pela marcação a mercado da dívida em USD. FCO de 2025 já foi negativo (−R$ 115 mi).

4. Valuation — múltiplos & DCF

MúltiploNATU3Leitura
P/VP0,95×Abaixo do valor patrimonial
EV/EBITDA8,45×Neutro p/ consumo
P/Ln.a.Prejuízo LTM
ROE LTM−18,7%Destrói valor no momento
Earnings yield−19,6%Negativo

DCF não foi possível de forma responsável. O fluxo de caixa operacional da Natura é estruturalmente instável e recentemente negativo (FCO 2025 = −R$ 115 mi; prejuízo LTM de R$ 2,3 bi), o que torna um FCF base normalizado e uma perpetuidade de Gordon sem sentido econômico — qualquer número seria fabricado. Seguindo a regra da casa, o valuation fica ancorado nos múltiplos: a R$ 8,24 o papel vale 0,95× o PL e 8,45× EV/EBITDA. O P/VP abaixo de 1 embute a expectativa de que o turnaround pós-Avon não entregue ROE positivo tão cedo — é um múltiplo de distress/reestruturação, não de barganha óbvia. O setor "Produtos de Uso Pessoal" na B3 é raso (só micro-caps e nomes em RJ como pares diretos), então a referência de múltiplo é o próprio histórico da empresa e o consumo não-cíclico em geral. Estimativa com base em dados CVM/B3; não é recomendação.

5. Proventos

Sem distribuição de proventos relevante nos últimos 12 meses — coerente com prejuízo e caixa pressionado. Não há calendário de dividendos futuro registrado. Para um papel que hoje é caso de reestruturação, o retorno ao acionista depende primeiro da volta à geração de caixa, não de dividendo. DY praticamente nulo vs CDI de 14,15%.

6. Fluxo de players (12 meses vs 3 meses)

A leitura mais interessante do dossiê está aqui: quem carregou o papel nos 12 meses (dominado por Mirae, Itaú, Morgan e Merrill do lado comprador; Goldman e BTG vendedores) mudou de mão nos últimos 3 meses. Merrill e BTG viraram os maiores acumuladores líquidos recentes, enquanto Goldman, Mirae e UBS passaram a distribuir.

12 meses — AcumuladoresNet R$ miPersist.
Mirae+17053,6%
Itaú+10453,2%
Morgan Stanley+12141,6%
Merrill+7848,4%
BGC+6052,8%
Safra+4850,4%
12 meses — DistribuidoresNet R$ miPersist.
Goldman−14040,0%
BTG−11157,6%
JP Morgan−7752,0%
Ágora−9245,2%
Citigroup−6048,6%
Ideal−3146,2%
3 meses — AcumuladoresNet R$ miPersist.
Merrill+17765,1%
BTG+10655,6%
Necton+2454,0%
BGC+1861,9%
Santander+2155,6%
Morgan Stanley+2154,0%
3 meses — DistribuidoresNet R$ miPersist.
Goldman−10439,7%
Mirae−9941,3%
UBS−9339,7%
XP−4044,4%
Citigroup−3837,7%
Ideal−2438,1%

Emparelhando com o preço: a rotação comprador (BTG/Merrill) aconteceu justamente na queda de R$ 10,50 para R$ 8,24 — acúmulo em preço deprimido, com alta persistência (BTG 55,6%, Merrill 65,1%). Do outro lado, UBS distribuindo forte nos 3 meses é o contraponto vendedor a acompanhar.

7. Derivativos — Opções

IV ATM
61,8%
IV rank 252d
72
IV rank 63d
100
Prêmio vs realizada
+9,8 pp
PCR volume
12,8
PCR OI
2,69

A volatilidade implícita disparou: IV ATM de 61,8%, no topo absoluto da janela de 63 pregões (rank 100) e percentil 96 em 252 dias, pagando ~10 pp acima da vol realizada. O put/call ratio está pesadíssimo — 12,8 por volume e 2,69 por posição em aberto, ambos em percentis altos (84/71). Tradução: muito mais put do que call, hedge/viés de baixa dominando o book de opções. O OI de put (20,9 mi) é quase 3× o de call (7,8 mi). É o retrato de um mercado comprando proteção contra continuação da queda.

8. Derivativos — Aluguel (BTB) & Termo

Estoque BTB
R$ 1,11 bi
Δ estoque 63d
+99,5%
Taxa tomador
75,8% a.a.
Percentil taxa 18m
98,7
Short interest
15,84% FF
Days-to-cover
8,6 dias

Este é o sinal mais forte do relatório. O estoque de aluguel saltou +17,9% em 5 dias, +77,3% em 21 e +99,5% em 63 pregões — quase dobrou. A taxa de tomador está em 75,8% a.a., no percentil 98,7 dos últimos 18 meses: quem está shorteando está pagando caro para fazê-lo, o que denota convicção vendedora. Short interest de 15,8% do free float e days-to-cover de 8,6 dias montam a faca de dois gumes: pressão vendedora estrutural, mas também combustível para um short squeeze se aparecer um gatilho positivo (o repique de +9,9% em 5 dias é um aperitivo do que pode acontecer). Termo é irrelevante (145 contratos, R$ 5 mi).

9. Liquidez & risco

ADTV de R$ 92 mi na janela de 252 pregões (R$ 132 mi nos últimos 21), posição 54 de 537 ações, percentil 90 de liquidez. Ordem de R$ 1 mi = 1,1% do ADTV (operável com cautela); R$ 5 mi já vira alto impacto (5,4%). Papel líquido o suficiente para posição institucional relevante, mas a volatilidade de 52% exige dimensionamento.

10. Governança & partes relacionadas (CVM 44)

Movimentação de insiders no período foi modesta e mista: um Conselheiro vendeu 100 mil ações a R$ 10,06 (R$ 1,0 mi) em 21/05 — única venda a mercado relevante nos 12 meses. As demais entradas em VLMO são administrativas (opções, subscrição, créditos a R$ 0,01). Red-flag a monitorar: volume expressivo de transações com partes relacionadas — reembolsos de custos compartilhados com Avon Cosmetics (R$ 355 mi + R$ 164 mi) e Natura &Co Holding (R$ 34 mi), além de mútuos intragrupo a SOFR+3% a SOFR+5,55% (Natura &Co Luxembourg R$ 322 mi, UK Holdings R$ 266 mi). São operações declaradas como a preço de custo/mercado, mas o volume de fluxo financeiro para o grupo controlador é material e merece leitura atenta em quem investe na NATU3 isolada. Auditor: Deloitte (asseguração do Relato Integrado 2025).

11. Fatos, agenda & notícias

Fato mais quente é de hoje (02/07): a Advent (via Lotus FIP) declarou participação relevante de 6,6% do capital (90,7 mi de ações) mais exposição econômica adicional de 1,4% via derivativos (TRS) — movimento de um private equity entrando no papel em meio à queda, potencial catalisador de tese de reestruturação/M&A. Antes disso, Baillie Gifford havia cruzado 5,06% (abr/26). Agenda à frente: ITR do 2T26 em 10/08, informe de governança (CGVN) em 29/07. O 1T26 (prejuízo de R$ 445 mi, reclassificação de Avon International/Rússia/CARD como ativos para venda) segue sendo o driver fundamental recente.

12. Contexto macro

Pano de fundo pouco favorável a consumo discricionário e a balanços alavancados: Selic meta em 14,25% (Focus projeta 14,0%), CDI a 14,15%, IPCA 12m a 4,72% e curva de juros longa a 14,5% (Tesouro 10a). USDBRL a R$ 5,19. Para a Natura, os dois vetores macro que mais pesam são (i) o câmbio, dado o endividamento e mútuos em USD (SOFR+ e marcação a mercado que derrubou o 1T26), e (ii) o juro alto, que encarece a dívida (dív. líq./EBITDA 2,1×) e pressiona o consumo. Desemprego em queda (5,6%) é o contraponto positivo pelo lado da demanda.

13. Síntese

Forças: múltiplo de distress (0,95× PL, 8,45× EV/EBITDA) que já precifica muita coisa ruim; liquidez alta; entrada da Advent (6,6%) como possível catalisador de reestruturação/M&A; short interest elevado que pode virar combustível de squeeze; rotação comprador de BTG/Merrill nos últimos 3 meses em preço deprimido.

Riscos: balanço no vermelho (prejuízo LTM R$ 2,3 bi, FCO negativo, margem EBITDA em queda para 10%); aluguel dobrando e taxa no topo histórico (98,7 percentil) = convicção vendedora institucional; PCR de opções extremo com puts caras; exposição cambial via dívida USD num real a 5,19; volume material de partes relacionadas com o grupo controlador; papel fora do Ibov.

Referência factual (não é recomendação): a R$ 8,24, NATU3 é uma aposta binária em turnaround — quem compra o P/VP<1 aposta na recuperação da geração de caixa e na tese Advent; quem está no aluguel aposta que o vermelho continua. O DCF não sustenta valor no fluxo atual; a decisão é sobre execução, não sobre múltiplo barato.