MGLU3 — Magazine Luiza

Varejista no menor patamar da história: P/VP 0,32×, lucro -54% em 2025, controlador vendendo via BTG e short de 20% do free float — tese de turnaround ainda sem catalisador de resultado.

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Fundamentalista

MGLU3 — Magazine Luiza

30/06/2026
Tese-resumo. O Magazine Luiza negocia no menor patamar da sua história (R$ 4,50, market cap ~R$ 3,6 bi), depois de cair 47,6% no ano e acumular perda de 97% em 5 anos. O operacional está sob controle — margem bruta de ~30%, EBITDA crescendo, geração de caixa operacional robusta — mas o lucro líquido despencou 54% em 2025 (R$ 205 mi) com o peso do resultado financeiro num ambiente de Selic a 14,25%. A R$ 0,32 de valor patrimonial (P/VP 0,32×) e EV/EBITDA de 2,4×, o papel é opcionalidade barata de turnaround, mas três sinais pesam contra no curto prazo: o controlador vem vendendo ações pesado via BTG (CVM 44), o short interest equivale a 20% do free float, e não há gatilho de resultado à vista — o próximo balanço (2T26) só sai em 06/08. Estimativa, não recomendação.
Fechamento (30/06)
R$ 4,50
−47,6% YTD · −49% 12m
Market cap
R$ 3,6 bi
775,9 mi ações ON
P/VP · EV/EBITDA
0,32× · 2,4×
P/L 26× · ROE 1,2%
Drawdown vs pico 52s
−57,8%
máx R$ 11,44 · mín R$ 4,03

1. A empresa

Magazine Luiza S.A. (MGLU3) é uma das maiores varejistas do país, do setor de Consumo Cíclico / Comércio / Eletrodomésticos, com sede em Franca (SP) e listada no Novo Mercado. Opera um modelo híbrido de lojas físicas, e-commerce próprio (1P) e marketplace (3P), além de braços de logística (Magalog) e serviços financeiros (Magalu Pagamentos / consórcios). O capital é 100% ordinário — não há classe PN.

O controle é familiar e fechado por acordo de acionistas: o bloco de controle detém 49,29% do capital votante, ancorado na holding LTD Administração e Participações (45,05% direto na companhia), por sua vez controlada pela Luiza Participações, onde a família Trajano (Luiza Helena Trajano à frente do Conselho) e os Garcia concentram a participação. O free float é de ~95,9% sobre as ações em circulação no critério B3 (373,2 mi de ações), o que dá ao papel altíssima liquidez de bolsa apesar do controle concentrado. Entre relevantes acima de 5% aparecem ainda Alaska Investimentos (8,05% ON) e BTG Pactual (5,03% ON).

Mais de 100 fundos carregam o papel; os maiores são veículos de gestores institucionais — Morgan Stanley (Caieiras, R$ 16,3 mi), Itaú (Oiti, R$ 7,3 mi), Caixa (Master Ações, R$ 6,0 mi) e BTG (Synergy Equity Hedge) — perfil de posição tática/multimercado, não de âncora estratégica.

2. Preço & desempenho

A ação fechou 29/06 em R$ 4,64 (R$ 4,50 ao vivo em 30/06), depois de uma das piores sequências da sua história recente. Os retornos contam a história: −26,9% em 21 pregões, −44,5% em 63d, −47,6% no ano e −46,1% em 12 meses. A queda se intensificou a partir de maio/26, após o resultado do 1T26 (08/05) — o papel saiu de ~R$ 8 para a faixa de R$ 4,40–5,00, formando nova mínima de 52 semanas (R$ 4,03) e um drawdown de 57,8% versus o pico de R$ 11,44. No horizonte longo o quadro é dramático: −86% em 3 anos e −97% em 5 anos, contra a máxima histórica de R$ 249 (ajustada) de novembro de 2020.

Vol. realizada 21d (a.a.)
60,2%
Beta 252d vs IBOV
2,06
corr 0,60
Dist. da máxima 52s
−59,4%
Liquidez 21d
R$ 119 mi/dia
~16 mil negócios

É um papel de beta elevado (2,06× o IBOV em 252d) e vol anualizada de 60% — qualquer posição aqui é uma aposta direcional de alta amplitude, não uma alocação defensiva.

3. Resultados (5 anos)

A receita é resiliente e praticamente estável: R$ 38,7 bi em 2025 (+1,7% a/a), seguindo a faixa de R$ 35–38 bi dos últimos cinco anos. A margem bruta se mantém saudável em ~29,9%, e o EBITDA cresceu 10,6% para R$ 3,2 bi (margem EBITDA 8,3%, contra 7,6% em 2024 e apenas 2,4% no fundo de 2023). A recuperação operacional pós-2023 é real — a empresa saiu de prejuízo de R$ 979 mi (2023) para lucros em 2024 e 2025.

O problema está embaixo da linha do EBITDA. O resultado financeiro consumiu R$ 2,04 bi em 2025 (vs R$ 1,48 bi em 2024), reflexo direto da Selic a 14,25% sobre a estrutura de capital. Com isso o lucro antes de impostos ficou negativo (−R$ 125 mi) e só virou lucro líquido de R$ 205 mi por créditos tributários — uma queda de 54,4% no lucro a/a, com margem líquida de míseros 0,53% e ROE de 1,2%. A dívida líquida subiu para R$ 3,37 bi (1,05× EBITDA), alavancagem controlada, mas o custo da dívida é hoje o inimigo número um da tese.

R$ bi20212022202320242025
Receita35,337,336,838,038,7
EBITDA1,291,940,872,903,20
Margem EBITDA3,7%5,2%2,4%7,6%8,3%
Lucro líquido0,59−0,50−0,980,450,20
ROE5,3%−4,7%−10,2%4,0%1,2%
Dív. líq./EBITDA3,3×2,4×5,5×0,95×1,05×

4. Valuation — múltiplos & referência

No corte de pares do comércio (B3), o MGLU3 está entre os mais descontados por patrimônio: P/VP 0,32× e EV/EBITDA 2,36×. O P/L de 26× engana — é alto porque o lucro está deprimido (base comprimida pelo financeiro), não porque o papel está caro. O earnings yield de 3,8% perde feio para o CDI de 14,3%, o que explica boa parte da rejeição do mercado.

TickerP/VPEV/EBITDAP/LROE
MGLU30,32×2,36×26,4×1,2%
BHIA3 (Casas Bahia)0,62×3,11×−205%
CEAB3 (C&A)0,91×2,83×5,8×15,8%
AZZA3 (Azzas)0,47×4,05×4,6×10,4%
GMAT3 (Grupo Mateus)0,73×3,46×5,0×14,8%
SBFG3 (Centauro)0,79×5,02×7,3×10,8%

Por que não há DCF aqui: o fluxo de caixa livre reportado de MGLU é dominado por variações de capital de giro e estrutura de antecipação de recebíveis (FCO de R$ 15,7 bi vs FCF contábil negativo de R$ 15 bi em 2025), o que torna a normalização do FCF base não-confiável sem premissas heroicas. O valuation aqui se ancora nos múltiplos vs setor: o desconto patrimonial é real (0,32× é o 2º menor do bloco, atrás só do BHIA em recuperação judicial parcial), mas é desconto merecido enquanto o ROE rodar a 1,2% e o financeiro comer o lucro. A reprecificação depende de corte de Selic ou de salto de rentabilidade — não de re-rating de múltiplo isolado.

5. Proventos

Retorno ao acionista é marginal. Em abril/26 a empresa distribuiu R$ 0,0813/ação (yield de ~0,93% na data-ex), referente ao exercício de 2025 — muito abaixo dos R$ 0,305/ação pagos em 2025 sobre 2024. O yield 12m acumulado é de apenas 1,86%, irrelevante frente ao CDI de 14,3%. Não há programa de recompra ativo. Para o investidor, a tese é 100% ganho de capital / turnaround — não há colchão de dividendo.

6. Fluxo de players (12m / ~3 meses retidos)

No acúmulo líquido por corretora (EOD, janela de 249 pregões), o lado comprador é liderado por Goldman (+R$ 202 mi), BGC (+R$ 136 mi), Ágora (+R$ 69 mi), JP Morgan (+R$ 51 mi) e XP (+R$ 49 mi). Do lado vendedor, UBS (−R$ 191 mi), BTG (−R$ 155 mi), Santander (−R$ 77 mi) e Ideal (−R$ 68 mi) puxam a distribuição. O ponto de atenção é o BTG na ponta vendedora — coerente com as vendas do controlador roteadas por essa corretora (ver Governança). O fluxo de Goldman comprador casa com a notícia de 25/03 de posição via derivativos (0,76% das ações), mais arbitragem/hedge que convicção direcional.

Compradores líq. (R$)SaldoVendedores líq. (R$)Saldo
Goldman+202,1 miUBS−190,6 mi
BGC+136,2 miBTG−155,0 mi
Ágora+68,6 miSantander−76,7 mi
JP Morgan+51,2 miIdeal−68,2 mi
XP+48,7 miMerrill−65,6 mi

7. Derivativos — Opções

O livro de opções é muito ativo (liquidez típica de blue chip de varejo). No vencimento de julho/26, o GEX total é positivo (+R$ 313 mm), com gamma-zero em R$ 4,44 (−3,9% vs spot): acima desse nível o regime é de mean-reversion / pinning — dealers comprados em gamma vendem força e compram fraqueza, amortecendo a vol. Os ímãs de gamma mais fortes estão em R$ 4,43 (forte), R$ 4,83 e R$ 5,33.

O sentimento via opções é defensivo: o put/call ratio por volume está em 2,95 (percentil 61) e por OI em 1,21 (percentil 84,6) — ou seja, há bem mais posição em put aberta que em call, sinal de hedge de queda / proteção predominante. A IV ATM está em 65%, com IV rank 40 e percentil 67 (vol ligeiramente cara vs o próprio histórico), e prêmio de +4,9 p.p. sobre a vol realizada de 21d — opções pagando acima do realizado, ambiente que favorece vender volatilidade para quem opera estrutura.

8. Derivativos — Aluguel (BTB) & Termo

Estoque BTB
R$ 371 mi
76,3 mi ações
Taxa de aluguel (a.a.)
18,24%
percentil 48 (18m)
Short interest
9,8%
20,4% do free float
Days-to-cover
3,17

O short é o número que mais salta: 20,4% do free float está vendido via aluguel, com taxa de 18,24% a.a. (acima da Selic — há demanda real por tomar o papel emprestado para shortear). A taxa caiu nas três janelas (−1.494 bps em 63d), o que indica que a pressão extrema de short se acomodou um pouco, mas o nível de posicionamento vendido segue alto. Days-to-cover de 3,2 — não é um squeeze iminente, mas é munição: qualquer notícia positiva forte poderia forçar recompra. O termo é irrelevante para a tese (notional em aberto de R$ 14,6 mi, em queda).

9. Governança & pessoas ligadas (CVM 44) — o alerta principal

Controlador vendendo, não comprando. Nos últimos 12 meses os negócios de pessoas ligadas somam 35 vendas contra apenas 2 compras, com saldo líquido vendedor de −R$ 276 mi (volume vendido de R$ 281 mi). O grosso saiu via BTG Pactual em março–abril/26, em blocos diários de R$ 5–22 mi a preços de R$ 8,2–9,8 — ou seja, o controlador desovou posição relevante antes da queda de maio/junho que levou o papel a R$ 4,50. A única compra material foi de um Diretor (R$ 5,0 mi a R$ 7,33 em agosto/25). Esse padrão — controlador líquido-vendedor enquanto a ação cai — é o sinal de governança mais pesado do dossiê.

Partes relacionadas: contratos pequenos e de baixo valor (software de RH, gestão de incentivos via Pris Software ligada ao BTG, assessoria financeira via Blue Ocean — gestora de Gabriel Trajano, família controladora). Valores irrisórios (dezenas a centenas de milhares de reais), sem empréstimo a controlador nem taxa fora de mercado relevante — não é red-flag material, mas vale o monitoramento da Blue Ocean por ser de membro da família.

Conselho: em abril/26 Luiza Helena Trajano foi reeleita presidente do Conselho e Marcelo José Ferreira e Silva vice — continuidade da governança familiar.

10. Liquidez & risco

Liquidez não é problema: ADTV de R$ 173 mi/dia (12m), percentil 94,6 do mercado, 30ª ação mais líquida da B3. Ordens de até R$ 1 mi têm impacto de 0,58% do ADTV (operável); até R$ 5 mi, 2,9% (operável com cautela). É um dos papéis mais fáceis de entrar e sair da bolsa — o risco aqui é direcional e de tese, não de execução.

11. Fatos, agenda & notícias

O fato corporativo mais relevante do trimestre é estratégico e positivo: a Magalu passou a vender ~12 mil produtos no marketplace da Amazon no Brasil a partir de junho/26 — um movimento de canal que amplia alcance, ainda que com implicações de margem a observar. Em paralelo, o Citi elevou a recomendação de "venda/alto risco" para "neutra/alto risco" em junho, vendo risco/retorno mais equilibrado após a queda de 40% no ano. O 1T26 (08/05) veio com margens preservadas (bruta 30,8%, EBITDA ajustado R$ 718 mi, margem 7,8%) e R$ 2,0 bi de geração de caixa operacional em 12m — operacional ok, mas insuficiente para segurar a ação.

Próximos eventos: ITR do 2T26 em 06/08/2026 (o gatilho mais importante à frente), ITR 3T em 05/11. Informe de governança (CGVN) até 31/07.

12. Contexto macro

O pano de fundo é o principal vento contrário. Selic em 14,25% (Focus projeta 14,0%), CDI a 14,3%, DI 1 ano a 14,15% — juro alto é veneno duplo para o MGLU: encarece a dívida (resultado financeiro foi o que matou o lucro) e torna o earnings yield de 3,8% e o yield de 1,9% não-competitivos contra renda fixa. IPCA a 4,72% a/a (acima da meta), dólar a R$ 5,17, desemprego em queda (5,6%). O cenário só destrava a favor do papel com início de ciclo de corte de juros — o que o mercado ainda não precifica para 2026.

13. Síntese — pilares da tese

A favor (turnaround barato): valuation patrimonial no chão histórico (P/VP 0,32×, EV/EBITDA 2,4×); EBITDA em recuperação consistente (+10,6% em 2025, margem 8,3% vs 2,4% no fundo de 2023); liquidez de blue chip; novo canal Amazon e upgrade do Citi sinalizando piso de sentimento; short de 20% do free float = munição para squeeze se houver gatilho.

Contra (sem catalisador): lucro esmagado pelo financeiro (ROE 1,2%, margem líquida 0,5%) enquanto Selic seguir a 14,25%; controlador líquido-vendedor de R$ 276 mi via BTG — o sinal mais pesado; PCR por OI no percentil 85 (mercado comprando proteção); yield irrelevante (1,9% vs CDI 14,3%); próximo balanço só em 06/08, sem evento que destrave a reprecificação no curtíssimo prazo.

Leitura factual: o desconto é real, mas é desconto merecido enquanto rentabilidade e juros não virarem. É uma opção de turnaround de alto beta — assimétrica no longo prazo, mas sem gatilho identificável no curto, e com o próprio controlador vendendo na queda. Estimativas e leituras factuais — não é recomendação de compra ou venda.