MGLU3 — Magazine Luiza
EBITDA recorde e desalavancagem concluída, mas lucro anêmico (ROE 1,8%) e resultado financeiro de R$ −2 bi sob Selic 14,25%; valuation em desconto extremo (P/VP 0,15x) — opção alavancada à queda de juros.
MGLU3 — Magazine Luiza
Magazine Luiza (MGLU3) — Dossiê Fundamentalista
Varejo de eletrodomésticos e e-commerce · Novo Mercado · CNPJ 47.960.950/0001-21 · Dados B3/CVM/BCB — Trade Hunter MCP · as_of 25/06/2026
1 · A empresa
A Magazine Luiza S.A. (Magalu) é uma das maiores varejistas do Brasil, com sede em Franca (SP), atuando no setor de Consumo Cíclico / Comércio / Eletrodomésticos. Opera um modelo híbrido — rede de lojas físicas + e-commerce próprio + marketplace (3P) — e ecossistema de serviços financeiros (Luizacred, cartão Luiza) e logística (Magalog). Listada no Novo Mercado desde 2011, é uma companhia só com ações ordinárias (sem PN), o que simplifica a estrutura de governança: uma ação, um voto.
373,2 mi de 389,2 mi ações em circulação (ref. abr/26). Liquidez altíssima — uma das ações mais negociadas da B3 no varejo.
Acordo de acionistas reúne a família Trajano/Garcia através de Luiza Participações, LTD Adm. e Wagner Garcia Part. Luiza Helena Trajano preside o Conselho. Mesmo com float alto, o bloco controlador mantém o comando estratégico.
⚠️ Nota: MGLU3 não compõe o Ibovespa na referência atual (jun/26) — o que reduz fluxo passivo de ETFs e fundos indexados. Em dez/25 houve bonificação 5:1 (ajuste de base acionária a considerar em séries históricas de preço).
2 · Resultados — a trajetória de 5 anos
A história fundamentalista de Magalu nos últimos cinco anos é a de uma recuperação operacional real, mas incompleta. A receita ficou praticamente estagnada em termos nominais (R$ 35,3 bi em 2021 → R$ 38,7 bi em 2025, ~2,3% a.a. — abaixo da inflação), o que diz muito: o crescimento de top-line acabou. O turnaround foi de margem, não de volume.
Receita líquida (R$ bi)O verdadeiro motor foi o EBITDA, que saltou de um piso deprimido em 2023 (R$ 0,87 bi, margem 2,4%) para R$ 3,2 bi em 2025 (margem 8,3%) — uma recuperação de margem de quase 6 p.p. via disciplina de custos, mix mais rentável (serviços/3P/publicidade) e fim do ciclo de queima de caixa pós-pandemia.
EBITDA (R$ bi)O lucro líquido conta a parte frustrante da história. Mesmo com EBITDA recorde, o resultado final mal sai do zero: R$ 205 mi em 2025 (margem líquida de 0,53%), uma queda de 54% vs. 2024. O culpado é o resultado financeiro de R$ −2,04 bi — Magalu carrega dívida bruta de R$ 4,9 bi e, mais importante, antecipa recebíveis de cartão num ambiente de Selic a 14,25%. Cada ponto de juro alto é um imposto direto sobre o bottom-line. É uma empresa cujo EBITDA opera bem, mas cuja última linha é refém da curva de juros.
| Ano | Lucro líq. | Mg. líq. | ROE |
|---|---|---|---|
| 2021 | 591 | 1,67% | 5,3% |
| 2022 | −499 | −1,34% | −4,7% |
| 2023 | −979 | −2,66% | −10,2% |
| 2024 | 449 | 1,18% | 4,0% |
| 2025 | 205 | 0,53% | 1,8% |
Do pico de stress em 2023 (5,5x) para confortáveis ~1x em 2024–25. A estrutura de capital deixou de ser o problema; o custo dela ainda é.
| Indicador (2025) | Valor | Leitura |
|---|---|---|
| Margem bruta | 29,9% | Estável, levemente abaixo de 2024 (30,6%) |
| Margem EBITDA | 8,3% | Melhor da série; +0,7 p.p. YoY |
| Margem líquida | 0,53% | Esmagada pelo financeiro |
| ROE | 1,8% | Muito abaixo do custo de capital |
| Liquidez corrente | 1,15 | Apertada, mas positiva |
| Dív.líq/EBITDA | 1,05x | Saudável |
| Caixa total (1T26) | R$ 6,2 bi | Caixa líquido +R$ 1,2 bi reportado |
Crescimento YoY 2025: receita +1,7%, EBITDA +10,6%, lucro líquido −54,4%. Fonte: DFP CVM consolidado, ref. 31/12/2025.
3 · Valuation por múltiplos & DCF
| Múltiplo | MGLU3 |
|---|---|
| P/VP | 0,15x |
| EV/EBITDA | ~1,6x |
| P/L (lucro 2025) | 8,3x |
| EV/Receita | 0,13x |
O mercado precifica Magalu a 15% do valor patrimonial. Isso é um call de re-rating: se o lucro normalizar com queda de juros, há reprecificação relevante; se o financeiro continuar comendo o EBITDA, o desconto se justifica.
| Premissa | Valor |
|---|---|
| FCF base normalizado | ~R$ 1,5 bi/ano |
| g exp. (5 anos) | 6% a.a. |
| WACC | 16,5% |
| g perpetuidade | 4,5% |
| Dívida líquida | R$ 3,37 bi |
| Nº ações | 389,2 mi |
Com FCF base de R$ 1,5 bi, crescendo 6% por 5 anos, descontado a WACC de 16,5% (≈ DI longo de ~14% + prêmio de risco de equity ajustado ao setor de varejo cíclico), e perpetuidade de Gordon a g=4,5%, chega-se a um valor de firma na faixa de R$ 11–13 bi; descontada a dívida líquida de R$ 3,37 bi → equity de ~R$ 8–10 bi → valor justo estimado de R$ 21–25 por ação. Isso implicaria upside teórico expressivo sobre os R$ 4,37 atuais.
| WACC \ g_perp | 3,5% | 4,5% | 5,5% |
|---|---|---|---|
| 15,5% | 23 | 27 | 33 |
| 16,5% | 19 | 22 | 26 |
| 17,5% | 16 | 18 | 21 |
⚠️ Estimativa com premissas acima — não é recomendação de compra/venda. FCF normalizado é a variável crítica e incerta.
4 · Proventos
Magalu não é uma ação de dividendo, e isso é coerente com o estágio do negócio. Distribuiu apenas R$ 0,0813/ação em 2026 (ref. 2025), totalizando R$ 63 mi — yield de meros 0,93% na data-ex. O yield 12m acumulado é de 1,86%, irrisório frente a um CDI de 14,3%. O payout reflete o lucro magro: com R$ 205 mi de lucro, não há de onde distribuir generosamente. Quem compra MGLU3 compra upside de capital, não renda.
| Data-ex | Tipo | Valor/ação | Pagamento | Yield |
|---|---|---|---|---|
| 24/04/2026 | Div + JCP | R$ 0,0813 | 08/05/2026 | 0,93% |
| 25/04/2025 | Div + JCP | R$ 0,3052 | 05/05/2025 | 2,92% |
Sem programa de recompra ativo. Bonificação 5:1 em dez/25.
5 · Fluxo de players (ON) — janela ~249 pregões
O posicionamento institucional acumulado (EOD, ~últimos 12 meses retidos) mostra um cabo de guerra clássico de papel descontado: bancos de fluxo estrangeiro/local divididos. Do lado comprador líquido, Goldman lidera com +R$ 208 mi, seguido de BGC, JP Morgan e Morgan Stanley — nomes que tendem a representar fluxo institucional e estrangeiro montando posição no desconto. Do lado vendedor, BTG (−R$ 192 mi) e UBS (−R$ 163 mi) distribuíram pesado. É um papel de alta rotação (XP movimentou R$ 9,7 bi de cada lado), típico de ação-beta usada para trade direcional sobre juros.
Fonte: daily_broker_ticker_flow (EOD, acúmulo líquido — não tape ao vivo). Janela 26/06/2025–24/06/2026.
6 · Acionistas & insiders
O capital é controlado pelo bloco familiar Trajano/Garcia via acordo de acionistas, operado através das holdings Luiza Participações, LTD Administração e Wagner Garcia Participações. Entre os relevantes não-controladores aparecem nomes de peso do mercado: Alaska Investimentos (8,0%) e BTG Pactual (5,0%) — sinal de que casas qualificadas mantêm exposição relevante.
| Acionista | % capital | Tipo |
|---|---|---|
| Bloco controlador (acordo Trajano/Garcia) | ~45% (LTD) + holdings | Controlador |
| Alaska Investimentos | 8,05% | Relevante |
| Banco BTG Pactual | 5,03% | Relevante |
| Free float | 95,9% | Mercado |
Sem programa de recompra ativo. Insiders 12m: 2 compras (R$ 5,2 mi) · 35 vendas (R$ 281 mi) · net −R$ 276 mi.
7 · Sinais recentes, fatos & agenda
| Data | Fato |
|---|---|
| 08/06/26 | Magalu passa a vender ~12 mil produtos no marketplace da Amazon Brasil |
| 05/06/26 | Citi eleva recomendação p/ "neutra/alto risco" após queda de 40% no ano |
| 27/05/26 | Call 1T26: Mg. bruta 30,8%, EBITDA aj. R$ 718 mi, mg. 7,8% |
| 24/04/26 | Dividendos R$ 0,0813/ação aprovados |
| 25/03/26 | Goldman Sachs atinge 0,76% via derivativos |
| Evento | Data |
|---|---|
| ITR 2º trimestre | 06/08/2026 |
| Informe Gov. Corporativa | 31/07/2026 |
| ITR 3º trimestre | 05/11/2026 |
O 1T26 já saiu com margens preservadas e caixa líquido positivo — o próximo gatilho é o 2T26 em agosto.
O acordo com a Amazon é estrategicamente interessante: sinaliza monetização do estoque/sortimento via canal de terceiros — receita incremental de baixo custo marginal. A elevação de rating pelo Citi reflete não uma virada fundamentalista, mas o reconhecimento de que, após −40% no ano, o risco/retorno ficou mais simétrico.
8 · Contexto macro — Magalu é uma aposta em juros
Nenhuma ação na B3 é tão sensível à curva de juros quanto o varejo alavancado, e Magalu é o exemplo de manual. O pano de fundo atual é hostil: Selic meta em 14,25%, CDI a 14,33%, DI 1 ano a 14,15% e o Focus projetando Selic terminal de 14% — ou seja, juro alto por mais tempo. Com IPCA a 4,72% a/a (acima do teto da meta) e Focus de IPCA subindo para 5,33%, não há espaço para corte iminente.
A matemática é direta: o earnings yield de Magalu (1/8,3 ≈ 12%) está abaixo do CDI de 14,3% — o investidor exige um prêmio de risco que hoje a empresa não entrega via lucro. O DY de 1,86% perde feio para o CDI. E o resultado financeiro de R$ −2,0 bi que esmaga o lucro é função direta dessa Selic. O gatilho de re-rating de MGLU3 é o início de um ciclo de afrouxamento monetário — quando o custo de antecipar recebíveis cair, o EBITDA recorde finalmente "vaza" para a última linha. Enquanto o mercado de trabalho seguir forte (desemprego 5,8%) e o IPCA acima do teto, esse gatilho fica adiado. Do lado positivo, o desemprego baixo sustenta o consumo — relevante para o top-line.
9 · Síntese da tese
· EBITDA recorde e margem em expansão (8,3%) — operação saneada
· Desalavancagem concluída (dív.líq/EBITDA ~1x)
· Caixa líquido positivo (+R$ 1,2 bi, 1T26)
· Valuation em desconto extremo (P/VP 0,15x, EV/EBITDA 1,6x)
· Opcionalidade Amazon e monetização de serviços/3P
· Alavancagem máxima à queda de juros
· Lucro líquido anêmico — ROE 1,8%, abaixo do custo de capital
· Resultado financeiro de R$ −2 bi refém da Selic a 14,25%
· Receita estagnada em termos reais — sem crescimento de volume
· Controlador vendendo persistente (net −R$ 276 mi em 12m)
· Fora do Ibovespa — menor fluxo passivo
· DY irrisório (1,86% vs CDI 14,3%)