MGLU3 — Magazine Luiza

EBITDA recorde e desalavancagem concluída, mas lucro anêmico (ROE 1,8%) e resultado financeiro de R$ −2 bi sob Selic 14,25%; valuation em desconto extremo (P/VP 0,15x) — opção alavancada à queda de juros.

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Fundamentalista

MGLU3 — Magazine Luiza

25/06/2026 · Turnaround operacional real, lucro ainda refém da Selic

Magazine Luiza (MGLU3) — Dossiê Fundamentalista

Varejo de eletrodomésticos e e-commerce · Novo Mercado · CNPJ 47.960.950/0001-21 · Dados B3/CVM/BCB — Trade Hunter MCP · as_of 25/06/2026

MGLU3
4,37
−1,1%
Market cap
R$ 1,70 bi
389,2 mi ações ON
P/L
8,3x
lucro 2025
P/VP
0,15x
PL R$ 11,3 bi
EV/EBITDA
1,6x
EBITDA R$ 3,2 bi
DY 12m
1,86%
vs CDI 14,3%
Dív.líq/EBITDA
1,05x
ROE
1,8%
lucro magro
Tese-resumo. Magalu virou o caso clássico de "turnaround que ainda não virou lucro". Depois de três anos no vermelho (2022–2023), a empresa voltou ao azul em 2024–2025 com forte expansão de EBITDA e desalavancagem, mas o lucro líquido permanece anêmico (R$ 205 mi em 2025, margem de 0,53%) — esmagado por um resultado financeiro de R$ −2,0 bi que reflete o custo da dívida sob Selic de 14,25%. O papel está descontadíssimo em book (P/VP 0,15x) e EV (EV/EBITDA 1,6x), mas isso é tanto opção de re-rating quanto reflexo do risco: alavancagem operacional altíssima a juros, e um controlador vendendo ações de forma persistente ao longo de 2026. É uma tese de beta alto, alavancada à queda de juros — não de qualidade.

1 · A empresa

A Magazine Luiza S.A. (Magalu) é uma das maiores varejistas do Brasil, com sede em Franca (SP), atuando no setor de Consumo Cíclico / Comércio / Eletrodomésticos. Opera um modelo híbrido — rede de lojas físicas + e-commerce próprio + marketplace (3P) — e ecossistema de serviços financeiros (Luizacred, cartão Luiza) e logística (Magalog). Listada no Novo Mercado desde 2011, é uma companhia só com ações ordinárias (sem PN), o que simplifica a estrutura de governança: uma ação, um voto.

96%
Free float 95,9%

373,2 mi de 389,2 mi ações em circulação (ref. abr/26). Liquidez altíssima — uma das ações mais negociadas da B3 no varejo.

Controle familiar via holdings

Acordo de acionistas reúne a família Trajano/Garcia através de Luiza Participações, LTD Adm. e Wagner Garcia Part. Luiza Helena Trajano preside o Conselho. Mesmo com float alto, o bloco controlador mantém o comando estratégico.

⚠️ Nota: MGLU3 não compõe o Ibovespa na referência atual (jun/26) — o que reduz fluxo passivo de ETFs e fundos indexados. Em dez/25 houve bonificação 5:1 (ajuste de base acionária a considerar em séries históricas de preço).

2 · Resultados — a trajetória de 5 anos

A história fundamentalista de Magalu nos últimos cinco anos é a de uma recuperação operacional real, mas incompleta. A receita ficou praticamente estagnada em termos nominais (R$ 35,3 bi em 2021 → R$ 38,7 bi em 2025, ~2,3% a.a. — abaixo da inflação), o que diz muito: o crescimento de top-line acabou. O turnaround foi de margem, não de volume.

Receita líquida (R$ bi)
2021
35,3
2022
37,3
2023
36,8
2024
38,0
2025
38,7

O verdadeiro motor foi o EBITDA, que saltou de um piso deprimido em 2023 (R$ 0,87 bi, margem 2,4%) para R$ 3,2 bi em 2025 (margem 8,3%) — uma recuperação de margem de quase 6 p.p. via disciplina de custos, mix mais rentável (serviços/3P/publicidade) e fim do ciclo de queima de caixa pós-pandemia.

EBITDA (R$ bi)
2021
1,29
2022
1,94
2023
0,87
2024
2,90
2025
3,20

O lucro líquido conta a parte frustrante da história. Mesmo com EBITDA recorde, o resultado final mal sai do zero: R$ 205 mi em 2025 (margem líquida de 0,53%), uma queda de 54% vs. 2024. O culpado é o resultado financeiro de R$ −2,04 bi — Magalu carrega dívida bruta de R$ 4,9 bi e, mais importante, antecipa recebíveis de cartão num ambiente de Selic a 14,25%. Cada ponto de juro alto é um imposto direto sobre o bottom-line. É uma empresa cujo EBITDA opera bem, mas cuja última linha é refém da curva de juros.

Lucro líquido (R$ mi) — a montanha-russa
AnoLucro líq.Mg. líq.ROE
20215911,67%5,3%
2022−499−1,34%−4,7%
2023−979−2,66%−10,2%
20244491,18%4,0%
20252050,53%1,8%
Desalavancagem — dív.líq/EBITDA
3,3x 2,4x 5,5x 0,95x 1,05x

Do pico de stress em 2023 (5,5x) para confortáveis ~1x em 2024–25. A estrutura de capital deixou de ser o problema; o custo dela ainda é.

Indicador (2025)ValorLeitura
Margem bruta29,9%Estável, levemente abaixo de 2024 (30,6%)
Margem EBITDA8,3%Melhor da série; +0,7 p.p. YoY
Margem líquida0,53%Esmagada pelo financeiro
ROE1,8%Muito abaixo do custo de capital
Liquidez corrente1,15Apertada, mas positiva
Dív.líq/EBITDA1,05xSaudável
Caixa total (1T26)R$ 6,2 biCaixa líquido +R$ 1,2 bi reportado

Crescimento YoY 2025: receita +1,7%, EBITDA +10,6%, lucro líquido −54,4%. Fonte: DFP CVM consolidado, ref. 31/12/2025.

3 · Valuation por múltiplos & DCF

Por que múltiplos antes do DCF. O fluxo de caixa operacional reportado de Magalu (FCO de R$ 15,7 bi em 2025) é inflado pela dinâmica de capital de giro do braço financeiro (antecipação/repasse de recebíveis de cartão), não sendo um proxy limpo de geração de caixa para o acionista. Um DCF ingênuo sobre esse FCO produziria valor justo absurdamente alto e enganoso. Por isso a âncora principal aqui são os múltiplos; o DCF entra como cenário sensibilizado sobre o FCF normalizado pela geração de caixa operacional do guidance (~R$ 2,0 bi/ano LTM, citada no 1T26), explicitando todas as premissas.
Múltiplos atuais — desconto extremo
MúltiploMGLU3
P/VP0,15x
EV/EBITDA~1,6x
P/L (lucro 2025)8,3x
EV/Receita0,13x

O mercado precifica Magalu a 15% do valor patrimonial. Isso é um call de re-rating: se o lucro normalizar com queda de juros, há reprecificação relevante; se o financeiro continuar comendo o EBITDA, o desconto se justifica.

DCF — premissas explícitas (estimativa, não recomendação)
PremissaValor
FCF base normalizado~R$ 1,5 bi/ano
g exp. (5 anos)6% a.a.
WACC16,5%
g perpetuidade4,5%
Dívida líquidaR$ 3,37 bi
Nº ações389,2 mi

Com FCF base de R$ 1,5 bi, crescendo 6% por 5 anos, descontado a WACC de 16,5% (≈ DI longo de ~14% + prêmio de risco de equity ajustado ao setor de varejo cíclico), e perpetuidade de Gordon a g=4,5%, chega-se a um valor de firma na faixa de R$ 11–13 bi; descontada a dívida líquida de R$ 3,37 bi → equity de ~R$ 8–10 bi → valor justo estimado de R$ 21–25 por ação. Isso implicaria upside teórico expressivo sobre os R$ 4,37 atuais.

Leia com ceticismo. Esse intervalo é altamente sensível à premissa de FCF normalizado — o ponto mais frágil de toda a tese, dado o ruído do braço financeiro. Pequenas mudanças no WACC ou no FCF base movem o valor justo dramaticamente. O sinal relevante não é o número, é a direção: a ação negocia muito abaixo de qualquer cenário razoável de normalização, desde que a normalização aconteça. É exatamente esse "desde que" que o mercado está cobrando no preço.
Sensibilidade — valor justo/ação (R$)
WACC \ g_perp3,5%4,5%5,5%
15,5%232733
16,5%192226
17,5%161821

⚠️ Estimativa com premissas acima — não é recomendação de compra/venda. FCF normalizado é a variável crítica e incerta.

4 · Proventos

Magalu não é uma ação de dividendo, e isso é coerente com o estágio do negócio. Distribuiu apenas R$ 0,0813/ação em 2026 (ref. 2025), totalizando R$ 63 mi — yield de meros 0,93% na data-ex. O yield 12m acumulado é de 1,86%, irrisório frente a um CDI de 14,3%. O payout reflete o lucro magro: com R$ 205 mi de lucro, não há de onde distribuir generosamente. Quem compra MGLU3 compra upside de capital, não renda.

Data-exTipoValor/açãoPagamentoYield
24/04/2026Div + JCPR$ 0,081308/05/20260,93%
25/04/2025Div + JCPR$ 0,305205/05/20252,92%

Sem programa de recompra ativo. Bonificação 5:1 em dez/25.

5 · Fluxo de players (ON) — janela ~249 pregões

O posicionamento institucional acumulado (EOD, ~últimos 12 meses retidos) mostra um cabo de guerra clássico de papel descontado: bancos de fluxo estrangeiro/local divididos. Do lado comprador líquido, Goldman lidera com +R$ 208 mi, seguido de BGC, JP Morgan e Morgan Stanley — nomes que tendem a representar fluxo institucional e estrangeiro montando posição no desconto. Do lado vendedor, BTG (−R$ 192 mi) e UBS (−R$ 163 mi) distribuíram pesado. É um papel de alta rotação (XP movimentou R$ 9,7 bi de cada lado), típico de ação-beta usada para trade direcional sobre juros.

Top compradores líquidos (R$ mi)
Goldman
+208
BGC
+136
JP Morgan
+84
Morgan
+66
Ágora
+64
Top vendedores líquidos (R$ mi)
BTG
−192
UBS
−163
Santander
−78
Ideal
−68
Merrill
−67

Fonte: daily_broker_ticker_flow (EOD, acúmulo líquido — não tape ao vivo). Janela 26/06/2025–24/06/2026.

6 · Acionistas & insiders

O capital é controlado pelo bloco familiar Trajano/Garcia via acordo de acionistas, operado através das holdings Luiza Participações, LTD Administração e Wagner Garcia Participações. Entre os relevantes não-controladores aparecem nomes de peso do mercado: Alaska Investimentos (8,0%) e BTG Pactual (5,0%) — sinal de que casas qualificadas mantêm exposição relevante.

Alerta — controlador vendendo de forma persistente. O dado mais importante desta seção: nos últimos 12 meses houve 35 vendas contra apenas 2 compras de insiders a mercado, com volume líquido de −R$ 276 mi. O grosso é venda do "Controlador ou Vinculado" via BTG e XP, espalhada por todo o 1º trimestre de 2026 (preços de R$ 8,2 a R$ 9,8). Inclui também um lote de 15 milhões de ações vendidas em out/25 a R$ 9,33 (R$ 140 mi). Venda persistente de controlador num papel que já caiu ~40% no ano é um sinal de cautela que pesa contra a tese de re-rating.
Acionista% capitalTipo
Bloco controlador (acordo Trajano/Garcia)~45% (LTD) + holdingsControlador
Alaska Investimentos8,05%Relevante
Banco BTG Pactual5,03%Relevante
Free float95,9%Mercado

Sem programa de recompra ativo. Insiders 12m: 2 compras (R$ 5,2 mi) · 35 vendas (R$ 281 mi) · net −R$ 276 mi.

7 · Sinais recentes, fatos & agenda

Movimentos relevantes
DataFato
08/06/26Magalu passa a vender ~12 mil produtos no marketplace da Amazon Brasil
05/06/26Citi eleva recomendação p/ "neutra/alto risco" após queda de 40% no ano
27/05/26Call 1T26: Mg. bruta 30,8%, EBITDA aj. R$ 718 mi, mg. 7,8%
24/04/26Dividendos R$ 0,0813/ação aprovados
25/03/26Goldman Sachs atinge 0,76% via derivativos
Agenda futura (CVM 2026)
EventoData
ITR 2º trimestre06/08/2026
Informe Gov. Corporativa31/07/2026
ITR 3º trimestre05/11/2026

O 1T26 já saiu com margens preservadas e caixa líquido positivo — o próximo gatilho é o 2T26 em agosto.

O acordo com a Amazon é estrategicamente interessante: sinaliza monetização do estoque/sortimento via canal de terceiros — receita incremental de baixo custo marginal. A elevação de rating pelo Citi reflete não uma virada fundamentalista, mas o reconhecimento de que, após −40% no ano, o risco/retorno ficou mais simétrico.

8 · Contexto macro — Magalu é uma aposta em juros

Nenhuma ação na B3 é tão sensível à curva de juros quanto o varejo alavancado, e Magalu é o exemplo de manual. O pano de fundo atual é hostil: Selic meta em 14,25%, CDI a 14,33%, DI 1 ano a 14,15% e o Focus projetando Selic terminal de 14% — ou seja, juro alto por mais tempo. Com IPCA a 4,72% a/a (acima do teto da meta) e Focus de IPCA subindo para 5,33%, não há espaço para corte iminente.

Selic meta
14,25%
aperto mantido
CDI
14,33%
IPCA 12m
4,72%
acima do teto
USD/BRL
5,19
Desemprego
5,8%
baixo
CDS 5Y
127 bps

A matemática é direta: o earnings yield de Magalu (1/8,3 ≈ 12%) está abaixo do CDI de 14,3% — o investidor exige um prêmio de risco que hoje a empresa não entrega via lucro. O DY de 1,86% perde feio para o CDI. E o resultado financeiro de R$ −2,0 bi que esmaga o lucro é função direta dessa Selic. O gatilho de re-rating de MGLU3 é o início de um ciclo de afrouxamento monetário — quando o custo de antecipar recebíveis cair, o EBITDA recorde finalmente "vaza" para a última linha. Enquanto o mercado de trabalho seguir forte (desemprego 5,8%) e o IPCA acima do teto, esse gatilho fica adiado. Do lado positivo, o desemprego baixo sustenta o consumo — relevante para o top-line.

9 · Síntese da tese

Forças

· EBITDA recorde e margem em expansão (8,3%) — operação saneada
· Desalavancagem concluída (dív.líq/EBITDA ~1x)
· Caixa líquido positivo (+R$ 1,2 bi, 1T26)
· Valuation em desconto extremo (P/VP 0,15x, EV/EBITDA 1,6x)
· Opcionalidade Amazon e monetização de serviços/3P
· Alavancagem máxima à queda de juros

Riscos

· Lucro líquido anêmico — ROE 1,8%, abaixo do custo de capital
· Resultado financeiro de R$ −2 bi refém da Selic a 14,25%
· Receita estagnada em termos reais — sem crescimento de volume
· Controlador vendendo persistente (net −R$ 276 mi em 12m)
· Fora do Ibovespa — menor fluxo passivo
· DY irrisório (1,86% vs CDI 14,3%)

DCF como referência factual. Sob premissas explícitas (FCF normalizado ~R$ 1,5 bi, WACC 16,5%, g_perp 4,5%), a faixa de valor justo estimada é de R$ 21–25/ação, sensível sobretudo ao FCF normalizado. O ponto não é o número — é que a ação a R$ 4,37 já precifica um cenário muito pessimista. Magalu é uma opção alavancada sobre a normalização do ciclo de juros no Brasil: se a Selic cair, a tese de re-rating ganha tração; se persistir o juro alto e o controlador seguir distribuindo, o desconto se mantém justificado. Tese de beta e timing macro, não de qualidade de balanço. Não constitui recomendação de compra ou venda.