GGBR4 — Gerdau S.A.
Ação +38% em 12m e topo histórico, mas lucro caiu 69% em 2025 e margem EBITDA em 10,6%; balanço sólido (dív.líq./EBITDA 1,11×) sustenta a tese de virada de ciclo.
GGBR4 — Gerdau S.A.
1. A empresa
A Gerdau S.A. (CNPJ 33.611.500/0001-19, código CVM 3980) é a maior produtora de aço das Américas e a maior recicladora de sucata da América Latina, listada na B3 no segmento Nível 1 de governança desde 1980. Setor: Materiais Básicos / Siderurgia e Metalurgia / Siderurgia. A companhia opera por operações de negócio (Brasil, América do Norte, América do Sul e Aços Especiais) e tem na sucata e no forno elétrico (mini-mills) sua principal vantagem de custo.
O controle é familiar, da família Johannpeter, exercido de forma piramidal: a Metalúrgica Gerdau S.A. detém 98,0% das ordinárias (GGBR3) e 35,4% do capital total da Gerdau S.A. Acima dela, holdings familiares (INDAC, KLAPAR, JOPAR, FREPAR, GEPAR) consolidam o bloco de controle. Na prática, o capital negociado em bolsa é quase todo preferencial (GGBR4): 1,249 bilhão de ações PN num total de 1,263 bilhão — free float efetivo de praticamente 100% das PN. A base tem 210 mil pessoas físicas, 1.426 institucionais e nomes globais relevantes (BlackRock elevou para ~10% das PN em abril; T. Rowe Price reduziu para 4,99% em maio).
2. Preço & desempenho
GGBR4 fechou em R$ 21,42 (26/06/2026), num movimento de 12 meses que levou o papel de ~R$ 15,30 a uma máxima histórica de R$ 24,60 em 02/06/2026, recuando 13% desde então. O retrato de retornos resume bem o momento: forte em janelas longas, fraco no curtíssimo prazo.
| Janela | 1d | 5d | 21d | 63d | 126d | 252d | YTD |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Retorno | −0,1% | −1,1% | −9,8% | +16,9% | +6,2% | +37,9% | +6,4% |
| Métrica de risco | Valor |
|---|---|
| Faixa 52 semanas | R$ 15,15 – R$ 24,65 (a −13,1% do topo, +41,4% do fundo) |
| Vol. realizada anualizada (21d / 63d / 252d) | 36,5% / 32,0% / 26,4% |
| Beta vs IBOV (63d / 252d) | 1,01 / 0,84 |
| Liquidez média 21d | R$ 277 mi/dia · ~21,2 mil negócios/dia |
| Drawdown vs pico | −13,1% |
A leitura combinada é de realização após topo histórico: a vol subiu para 36,5% (21d) e o papel entrega a pior janela mensal do ano (−9,8%), pressionado pelo cenário externo (Brent abaixo de US$ 73, Fed em viés mais duro) e pela frustração com resultados. Ainda assim, segue +38% em 12 meses — o mercado precificou recuperação cíclica antes de ela aparecer no balanço.
3. Resultados (5 anos) — a trajetória do ciclo
A série anual conta a história de uma siderúrgica saindo do superciclo de 2021 e descendo a ladeira de margens. Valores consolidados (R$):
| Ano | Receita | EBITDA | Mg. EBITDA | Lucro líq. | ROE | Dív.líq./EBITDA |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2021 | 78,3 bi | 23,5 bi | 30,1% | 15,6 bi | 36,3% | 0,42× |
| 2022 | 82,4 bi | 20,7 bi | 25,1% | 11,5 bi | 24,8% | 0,49× |
| 2023 | 68,9 bi | 13,6 bi | 19,7% | 7,5 bi | 15,3% | 0,58× |
| 2024 | 67,0 bi | 10,6 bi | 15,8% | 4,6 bi | 7,9% | 0,55× |
| 2025 | 69,9 bi | 7,4 bi | 10,6% | 1,4 bi | 2,6% | 1,11× |
A receita de 2025 até cresceu 4,2% (R$ 69,9 bi), sustentada por preço/mix e pela operação norte-americana, mas a compressão de margem foi brutal: o EBITDA caiu 30,1% no ano e a margem chegou a 10,6%, menos de um terço do pico de 2021. O lucro líquido de R$ 1,42 bi (−69,2% YoY) e o ROE de 2,6% deixam o papel num patamar de rentabilidade que mal cobre o custo de capital. As causas são conhecidas: importação de aço chinês a preços deprimidos pressionando o Brasil, demanda industrial fraca e custos de sucata/energia ainda altos.
O contraponto é o balanço, e é forte. Mesmo no fundo do ciclo, a dívida líquida/EBITDA subiu apenas para 1,11× (de 0,55×), liquidez corrente de 2,89×, caixa de R$ 5,9 bi e dívida bruta de R$ 14,2 bi com perfil alongado. O fluxo de caixa operacional de R$ 8,0 bi em 2025 (vs R$ 11,4 bi em 2024) ainda financia CAPEX e proventos. É uma empresa que atravessa o vale do ciclo sem stress de solvência — o que dá a ela poder de fogo para o M&A em energia (DFESA) e a recompra/cancelamento de ações.
4. Valuation
Em rentabilidade corrente, GGBR4 negocia a um múltiplo de recuperação: market cap de R$ 27,2 bi sobre um lucro deprimido de R$ 1,4 bi implica P/L > 19× no trough — caro se o lucro for o de 2025, barato se a margem normalizar para 15%+ (o que devolveria lucro de R$ 4–7 bi e P/L de 4–7×). A tese de valuation é, na essência, uma aposta na inflexão do ciclo siderúrgico: medidas antidumping contra aço chinês, recuperação da construção e estabilização de custos. O balanço sólido (alavancagem <1,2×) é o que permite esperar essa inflexão sem diluição.
5. Proventos
A Gerdau distribui trimestralmente, combinando dividendos e JCP. O dividend yield 12m de GGBR4 é de 4,25% (4,88% em GGBR3), modesto frente ao CDI de 14,3% — coerente com uma empresa cíclica no fundo de resultados, onde o payout segue o lucro. Proventos recentes:
| Referência | Tipo | Valor/ação | Data-ex | Pagamento |
|---|---|---|---|---|
| 1T26 | Dividendo | R$ 0,18 | 13/05/2026 | 09/06/2026 |
| 4T25 | Dividendo | R$ 0,10 | 10/03/2026 | 18/03/2026 |
| 3T25 | Dividendo | R$ 0,28 | 10/11/2025 | 11/12/2025 |
| 2T25 | Dividendo | R$ 0,12 | 11/08/2025 | 18/08/2025 |
| 1T25 | Dividendo | R$ 0,12 | 08/05/2025 | 19/05/2025 |
O dividendo de R$ 0,18 do 1T26 (total de R$ 354 mi) foi declarado como antecipação do mínimo obrigatório. A política é de payout que acompanha o resultado — não é um papel de renda no sentido de uma utility, mas de um cíclico que devolve caixa quando ganha.
6. Fluxo de players (≈3 meses, EOD)
O fluxo líquido por corretora na janela retida (249 pregões de matview, ~3 meses) mostra um padrão nítido de smart money estrangeiro comprando e desks locais distribuindo. Saldos líquidos em R$:
| Compradores líquidos | Saldo | Vendedores líquidos | Saldo |
|---|---|---|---|
| Merrill (BofA) | +937 mi | BTG | −1.052 mi |
| Goldman Sachs | +662 mi | XP | −505 mi |
| Itaú | +594 mi | Tullett | −376 mi |
| Morgan Stanley | +452 mi | Safra | −375 mi |
| UBS | +341 mi | Santander | −369 mi |
| JP Morgan | +234 mi | Citigroup | −236 mi |
As corretoras tipicamente associadas a fluxo estrangeiro institucional (Merrill, Goldman, Morgan, UBS, JP Morgan) somam mais de R$ 2,6 bi de compra líquida, enquanto BTG e XP — pontas de varejo e local — lideram a distribuição. Casado com o preço (alta de 38% em 12m e topo histórico em junho), o quadro é de gringo acumulando na subida, o que ajuda a explicar a resiliência do papel apesar do balanço fraco. Atenção: é posicionamento de médio prazo EOD, não tape ao vivo.
7. Opções — paredes & pinning
No mapa de walls mais recente (atualização 28/06), o vencimento curto de julho/2026 mostra parede de call (resistência) na região de R$ 21,9–22,4 e parede de put (suporte) em ~R$ 21,2, com max pain orbitando R$ 21,2–21,9 — coerente com o preço atual de ~R$ 21,4, sugerindo pinning em torno de R$ 21–22 no curtíssimo prazo. Os vencimentos mais longos (out/2026, jan/2027) carregam paredes de call mais altas (R$ 23–24,6), refletindo apostas de continuidade da recuperação caso o ciclo vire. A estrutura de strikes reforça a leitura técnica: R$ 22 como teto imediato a vencer, R$ 21 como piso defendido.
8. CVM 44 — administradores e pessoas ligadas
As poucas compras foram da Metalúrgica Gerdau (controladora), em volumes pequenos e ligados a ajustes de posição. O sinal qualitativo é de distribuição pela administração na faixa de topo histórico — não é alerta de governança, mas contrasta com a narrativa otimista do preço: quem está dentro vendeu enquanto a ação subia.
9. Acionistas, recompras & fatos recentes
Controle: Metalúrgica Gerdau S.A. (98% das ON, 35,4% do capital total), no topo da pirâmide das holdings familiares Johannpeter. Não há acordo de acionistas formal registrado no bloco de PN; o float de GGBR4 é quase integralmente pulverizado.
Recompras & cancelamento: em abril/2026 o Conselho aprovou o cancelamento de 225 mil ON e 7,38 mi PN em tesouraria, sem redução de capital — capital social ajustado para 717,1 mi ON e 1.268,0 mi PN. Não há programa de recompra ativo no momento.
Movimentos estratégicos (energia): a Gerdau vem consolidando a Dona Francisca Energética (DFESA) — adquiriu 23,03% da Copel (EV de R$ 150 mi, fechado em jun/2026) e propôs comprar mais 23,03% da Celesc, o que a levaria a ~77% da hidrelétrica. É a mesma lógica de integração de custo de energia que sustenta a competitividade dos fornos elétricos.
Agenda futura: ITR do 2T26 previsto para 04/08/2026; FRE entregue em maio; ITR 3T26 em 26/10/2026.
10. Pano de fundo macro
O cenário para uma siderúrgica brasileira em junho/2026 é misto. Juros altos seguem o vilão estrutural: Selic em 14,25%, CDI 14,3%, DI 1 ano 14,15% e Focus projetando Selic terminal em 14% — o que mantém a demanda por aço (construção, bens duráveis) sob pressão e eleva o custo de oportunidade de um DY de 4,25%. O IPCA acelerou para 4,72% a/a. Câmbio a R$ 5,17/US$ é tailwind para a operação norte-americana e para exportação, mas o Brent caindo abaixo de US$ 73 e o petróleo fraco sinalizam atividade global morna. O DXY forte (120) e o Fed em viés de alta (Fed Funds 3,75%, sinalização hawkish) jogam contra commodities e ativos de risco emergentes. Em síntese: o ambiente macro não ajuda a inflexão de margem que o preço da ação já antecipa.
Síntese — forças × riscos
Forças
- Balanço sólido no fundo do ciclo: dív.líq./EBITDA 1,11×, liquidez 2,89×, caixa R$ 5,9 bi.
- FCO de R$ 8,0 bi ainda financia CAPEX + proventos.
- Smart money estrangeiro comprador (Merrill, Goldman, Morgan, UBS: >R$ 2,6 bi líquido em ~3m).
- Liderança nas Américas e vantagem de custo (sucata + mini-mills + integração de energia via DFESA).
- Momentum de preço: +38% em 12m, topo histórico em junho.
Riscos
- Fundamentos ainda encolhendo: lucro −69% em 2025, margem EBITDA em 10,6%, ROE 2,6%.
- Múltiplo de recuperação pago antes da recuperação aparecer.
- Insiders líquidos vendedores (−R$ 29,8 mi, 30 vendas × 5 compras) na faixa de topo.
- Macro adverso: Selic 14,25%, importação de aço chinês, demanda industrial fraca.
- Realização em curso: −9,8% no mês, vol 21d em 36,5%.