Estudo Fundamentalista — NATU3 (Natura)

Dossiê de NATU3 (ex-NTCO3): turnaround alavancado com prejuízo em 2025 e 1T26, short caríssimo (aluguel 75,8% a.a., 16% do FF) e a entrada da Advent (6,6%+TRS) como catalisador. DCF só fecha se a margem normalizar.

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Fundamentalista

Estudo Fundamentalista — NATU3 (Natura)

02/07/2026 · Ex-NTCO3 · Novo Mercado · Consumo não Cíclico / Produtos de Uso Pessoal
⚠️ Nota de ticker: o pedido veio como "NTCO3", código que não existe mais. Em 01/07/2025 a Natura&Co foi incorporada pela Natura Cosméticos e desde 02/07/2025 o papel negocia como NATU3 (Novo Mercado), conversão 1:1. Todo o dossiê abaixo é sobre NATU3 — a companhia viva. CNPJ 71.673.990/0001-77.
1. Tese-resumo & placar
Preço (01/07)R$ 8,58
Market capR$ 11,8 bi
Ações (ON)837,2 mi
Free float~100%
No IBOVSim
P/L LTMprejuízo
Dív. líq./EBITDA2,1x
ROE 2025-13,8%
Natura é a maior fabricante de cosméticos e produtos de uso pessoal do Brasil, hoje uma tese de turnaround puro. Depois de anos comprando e vendendo negócios (Aesop, The Body Shop, e agora a saída da Avon internacional), a companhia voltou às origens: simplificou a estrutura, retomou o ticker histórico NATU3 e concentrou o foco na América Latina. O preço a R$ 8,58 embute uma recuperação de margem que ainda não apareceu no resultado: 2025 fechou no prejuízo (R$ -1,79 bi) e o 1T26 veio com prejuízo de R$ -445 mi, castigado pela marcação da dívida em dólar. O que move a ação hoje é (i) a chegada da Advent (6,6% + TRS) ao capital, revelada nesta 5ª-feira, e (ii) um short muito pesado e caro (aluguel a 75,8% a.a., short interest ~16% do free float). Combustível de squeeze de um lado, tese de reestruturação do outro — e uma alavancagem que não perdoa erro de execução.
2. A empresa & estrutura de capital
Setor Consumo não Cíclico → Produtos de Uso Pessoal e de Limpeza. Controle disperso — o free float apurado pela B3 é de ~100% (838 mi ações), com base acionária de 46,7 mil PF, 1.064 PJ e 247 institucionais. Capital 100% ON (837,2 mi ações, sem PN), listada no Novo Mercado. A ausência de bloco de controle definido, somada à entrada da Advent, deixa a estrutura societária em aberto — fator relevante para qualquer tese de evento.
ON100%
3. Preço & desempenho
1 dia-1,7%
1 mês-12,8%
3 meses-7,1%
YTD+15,2%
12 meses-21,1%
5 anos-84,6%
Máx. 52sR$ 11,30
Mín. 52sR$ 7,13
O papel está -24% da máxima de 52 semanas e a apenas +20% da mínima — perto do fundo do range. A destruição de valor de longo prazo é brutal: -84,6% em 5 anos e -85,3% da máxima histórica de R$ 58,50 (jul/2021, no auge da bolha pós-IPO da holding). Vol realizada altíssima (48% a.a. em 252d), beta vs IBOV de 1,25. YTD o papel sobe +15,2%, mas os últimos 21 pregões devolveram -12,8%. É uma ação de alta amplitude, ideal para quem opera evento e volatilidade — não para quem busca previsibilidade.
4. Resultados (5 anos)
R$ bi20212022202320242025 Receita líq.20,720,214,921,321,8 EBITDA3,633,082,542,292,23 Margem EBITDA17,5%15,3%17,0%10,8%10,2% Lucro líq.0,930,126,440,76-1,79 ROE12,0%2,1%68,7%8,3%-13,8% Dív. líq./EBITDA1,5x1,8x0,4x0,3x2,1x A trajetória conta uma história de margem em queda estrutural: o EBITDA caiu de R$ 3,63 bi (2021) para R$ 2,23 bi (2025), e a margem despencou de 17,5% para 10,2%. Os "lucros" de 2023 (R$ 6,44 bi, ROE 68,7%) são contábeis e não recorrentes — vieram da venda de ativos (Aesop/The Body Shop), não da operação; note o FCI de +R$ 8,7 bi naquele ano. Em 2025 a alavancagem saltou para 2,1x com a dívida líquida subindo para R$ 4,68 bi. 1T26 (dado mais atual): receita R$ 4,75 bi (-1,9% A/A), EBITDA R$ 346 mi (margem 7,3%, -44,5% A/A), prejuízo de R$ -445 mi — impactado pela marcação a mercado dos derivativos da dívida em USD. A Avon International, Avon Rússia e CARD foram reclassificadas como ativos mantidos para venda, sinalizando o desmonte da aventura internacional.
5. Valuation — múltiplos & DCF
Múltiplos vs pares (Consumo Cíclico/Não Cíclico, LTM, preços 01/07): como a Natura está no prejuízo LTM, ela sai dos rankings de P/L e EV/EBITDA — em si um alerta. Para contexto de setor, os pares negociam a EV/EBITDA de 1–5x (setor deprimido no Brasil): Grupo Mateus 3,2x, Azzas 3,9x, Renner 4,6x, M. Dias Branco 4,8x. NATU3 não tem múltiplo de lucro por não gerar lucro; a tese só fecha por normalização de margem. DCF — estimativa, não recomendação. Premissas explícitas: FCF base = FCO normalizado (R$ 999 mi, média 2021/22/24/25, excluído o outlier de M&A de 2023) − CAPEX normalizado (R$ 450 mi) = R$ 549 mi. g explícito 4%, perpetuidade (Gordon) 4,5% ≈ inflação longa do Focus. WACC = 15,5% [Ke 18% (juro nominal 10a 14,5% + prêmio de risco ~5%, peso 68%) + Kd após-IR 10,2% (peso 32%, dívida USD/CDI)]. Dívida líquida R$ 4,68 bi; 837 mi ações. Leitura do DCF: no FCF normalizado atual (R$ 549 mi), a R$ 4,68 bi de dívida líquida e 15,5% de WACC, o equity quase não sobra — valor justo teórico próximo de R$ 0,5/ação. Isso não quer dizer que a ação "vale R$ 0,50": quer dizer que não há margem de segurança na geração de caixa atual e que todo o valor está numa recuperação futura. Invertendo a conta: o preço de R$ 8,58 embute um FCF sustentável implícito de ~R$ 1,27 bi (WACC 15,5%, g 4,5%) — ou seja, o mercado já paga pela margem normalizada (~13-14%, nível pré-Avon), não pela atual. A tese é binária: entrega o turnaround → R$ 8-9 se justifica; não entrega → a alavancagem corrói o equity. Valor justo R$/ação — cenário RECUPERAÇÃO (FCF R$ 1,3 bi)g 3,5%g 4,5%g 5,5% WACC 14,0%10,0211,1412,53 WACC 15,5%8,068,879,83 WACC 17,0%6,547,147,84 Valor justo R$/ação — cenário CONSERVADOR (FCF R$ 549 mi)g 3,5%g 4,5%g 5,5% WACC 14,0%1,001,472,06 WACC 15,5%0,170,510,92 WACC 17,0%-0,47-0,220,08 A faixa de sensibilidade é o resultado: entre ~R$ 0 e ~R$ 12 conforme se acredita ou não na normalização de margem. O preço atual está exatamente na fronteira entre os dois mundos.
6. Proventos
Sem proventos registrados sob a entidade NATU3 — coerente com uma empresa no prejuízo e recém-saída de reorganização societária. DY 12m efetivamente zero. Contra um CDI de 14,15% e Selic de 14,25%, não há tese de renda aqui; é 100% ganho de capital/turnaround.
7. Fluxo de players & aluguel (o coração da tese técnica)
⚠️ Short pesado e caro. Estoque de aluguel (BTB) de R$ 1,10 bi / 132,8 mi ações, que cresceu +99,5% em 63 pregões e +77% em 21. Taxa de aluguel a 75,8% a.a. — percentil 98,7% do histórico. Short interest de 9,66% das ações / 15,84% do free float, days-to-cover 8,6. É um dos shorts mais caros e adensados da bolsa agora. Aluguel (BTB) — evoluçãoEstoque (ações)Δ estoqueTaxa a.a. Atual (01/07)132,8 mi—75,8% vs 5 pregões112,6 mi+17,9%+67 bps vs 21 pregões74,9 mi+77,3%+62 bps vs 63 pregões66,5 mi+99,5%+76 bps Quem está tomando (short): o J.P. Morgan domina, com 22,2 mi de ações net tomadas a uma taxa baixa de 11,7% a.a. — provavelmente hedge de estrutura (casa com o TRS da Advent, veja seção 9). Morgan Stanley (+2,1 mi net) e Ideal CTVM (+5,0 mi) também tomados. BTG e XP aparecem como grandes doadores. HHI de tomadores 1.425 (concentração moderada). A leitura: parte do short é direcional/institucional (JPM a taxa baixa) e parte é varejo tomando caro a 75% — os últimos são o combustível clássico de squeeze se vier catalisador positivo.
8. Derivativos — Opções
ATM IV61,8%
IV rank 25272
IV pctil 25296%
Prêmio vs realizada+9,8 pp
PCR volume12,8
PCR OI2,69
Max pain (17/07)R$ 9,90
Gamma-zeroR$ 9,88
Vol cara e sentimento defensivo. A IV ATM saltou de ~29% no início de junho para 61,8% (percentil 96% em 252 pregões) — o mercado pagou muito por opção com a chegada da Advent e o resultado ruim. O put/call ratio está altíssimo (12,8 por volume, 2,69 por OI, percentis 84/71): dominância de puts, viés protetor/baixista. GEX total positivo (+R$ 47 mi), gamma-zero em R$ 9,88 (28% acima do spot) → abaixo de ~9,9 os dealers estão comprados em gamma, o que amortece a volatilidade e cria pinning nos ímãs. O maior ímã de gamma e o max pain coincidem em R$ 9,90 — um teto magnético relevante acima do preço. Livro de opções muito ativo (OI put 20,9 mi vs call 7,8 mi).
9. O catalisador: Advent entra no capital
🔥 Fato relevante de hoje (02/07, 09:20): a Advent International, via Lotus FIP, comunicou aquisição de participação relevante de 6,6% (90,68 mi ações) no capital da Natura, mais exposição econômica de 1,4% (19,29 mi ações) via derivativos (Total Return Swap). Um private equity de peso montando posição relevante + TRS numa empresa sem controlador definido, em pleno turnaround — é o tipo de movimento que reprecifica a tese de evento. O TRS ajuda a explicar o short direcional do JPM (banco tende a hedgear o swap tomando aluguel/vendido). Outros marcos recentes: Relatório Integrado 2025 (early adopter IFRS S1/S2, asseguração Deloitte), rating S&P atualizado em mai/26, e a reclassificação da Avon internacional como ativo para venda. A agenda de curto prazo gira em torno da execução do desinvestimento da Avon e da normalização de margem na LatAm.
10. Governança & CVM 44
Movimentação de administradores nos últimos meses é majoritariamente mecânica de plano de opções (créditos a R$ 0,01) e reorganização de posições do controlador/conselho pós-incorporação (créditos de 533,5 mi ações ao grupo "Controlador ou Vinculado", refletindo a nova estrutura). O ponto de atenção: uma venda do Conselho de Administração de 100.000 ações a R$ 10,06 em 21/mai/2026 (débito) — venda a mercado perto do topo recente do range. Sem padrão de compra relevante de insider que sustentasse um sinal comprador.
11. Liquidez & risco
ADTV 252dR$ 92,0 mi
ADTV (USD)US$ 17,4 mi
Percentil liquidez90
Posição (537 ações)54ª
Share mercado0,46%
Vol médio 21dR$ 132 mi
Liquidez alta e confortável (percentil 90, 54ª mais líquida da bolsa). Impacto de execução: ordens até R$ 500k são "operáveis" (0,54% do ADTV); R$ 1 mi já pede cautela (1,1%); R$ 5 mi tem alto impacto (5,4%). Para o público Hunter, é um papel plenamente operável tanto no direcional quanto em estruturas de opções/aluguel.
12. Macro (pano de fundo do setor)
Selic 14,25% / CDI 14,15% / DI 1a 14,15% — juro alto pesa duplamente: encarece a dívida (parte em USD, resultado financeiro de R$ -867 mi em 2025) e eleva o WACC que desconta o turnaround. IPCA Focus 5,33%, câmbio USDBRL 5,19 (Focus 5,20). A dívida em dólar torna a Natura sensível ao câmbio — foi exatamente a marcação dos derivativos de dívida USD que jogou o 1T26 no prejuízo. Curva de juros levemente positiva (2a-10a +0,42 pp), Treasury 10a 4,44%, spread Brasil-EUA de 10 anos em ~10 pp. Cenário de juro alto é adverso para uma tese alavancada e sem geração de caixa robusta.
13. Síntese — pilares da tese
Forças: (1) marca líder e franquia de vendas diretas dominante na LatAm; (2) simplificação societária concluída (foco recuperado); (3) entrada da Advent (6,6%+TRS) como catalisador de evento; (4) short pesadíssimo e caro (75,8% a.a., 16% do FF) = combustível de squeeze; (5) ação perto do fundo do range de 52s.

Riscos: (1) prejuízo recorrente — 2025 e 1T26 no vermelho; (2) alavancagem 2,1x com dívida em USD sensível ao câmbio; (3) margem EBITDA colapsou para ~7-10% e o DCF não fecha na geração atual; (4) sem controlador definido e sem proventos; (5) juro alto no Brasil penaliza a tese; (6) o preço já paga a margem normalizada — pouca margem de segurança.

DCF como referência factual (não recomendação): a R$ 8,58, o mercado embute FCF sustentável de ~R$ 1,27 bi, próximo do cenário de recuperação total de margem. É uma aposta de execução de turnaround com gatilho de evento (Advent) e dinâmica técnica explosiva (short + vol), não um caso de valor com margem de segurança.