Estudo Fundamentalista — EMBJ3 — Embraer — 21/07/2026
Embraer (EMBJ3): destaque de 20/07 (+2,43%), carteira recorde de US$ 31,3 bi e desalavancagem a 0,74× EBITDA — múltiplos, DCF, fluxo e opções.
Estudo Fundamentalista — EMBJ3 — Embraer — 21/07/2026
Escolhida pelo pregão de 20/07: a Embraer (EMBJ3) foi a ação líquida mais forte do dia — +2,43% e 10º maior giro da B3 (R$ 288 mi) — e na manhã seguinte (21/07) veio o 1º pedido do Grupo Abra (20 jatos E2), reforçando o ciclo de encomendas com carteira recorde de US$ 31,3 bi.
1. A empresa
Embraer S.A. (setor Bens Industriais / Material de Transporte / Material Aeronáutico e de Defesa) é a 3ª maior fabricante de jatos comerciais do mundo, com quatro frentes: Aviação Comercial (E-Jets/E2), Executiva (Phenom/Praetor), Defesa & Segurança (KC-390, caças/serviços) e Serviços & Suporte, além da eVTOL Eve. Listada no Novo Mercado (uma ação, um voto), é uma corporation de controle pulverizado: não há controlador (free float ~100%), e a União Federal detém uma ação de classe especial — golden share — com poder de veto sobre matérias estratégicas (mudança de controle, programas militares). Capital 100% ON: 740,5 mi ações emitidas, 711,8 mi em circulação (28,6 mi / 3,87% em tesouraria), sem classe PN.
Do lado dos fundos brasileiros (posição declarada à CVM, base 31/05), a detenção é modesta em relação ao tamanho da empresa — sinal do peso de indexados, estrangeiros e da própria BlackRock na base. Maiores posições por R$:
129 fundos distintos com posição declarada; predominam previdenciários (Previ, Brasilprev, Vivest, Caixa) e mesas quantitativas/multimercado (Kapitalo, Iceberg).
2. Preço & desempenho
Em 12 meses o papel sobe +18,2%, mas a leitura mais rica é a trajetória: disparou de ~R$ 70 (jul/25) à máxima da série desde 2017 de R$ 104,88 (23/01/2026), corrigiu para ~R$ 71 no fundo de maio e reconstruiu para R$ 83 — ainda −20,6% abaixo do topo e −5,7% no ano. Beta de 0,95 vs IBOV com correlação baixa (0,40): o papel tem vida própria, movido por encomendas e câmbio mais que pelo índice.
Nos últimos 90 pregões, o fundo de maio (~R$ 71) deu lugar a uma recuperação de ~+17%, com o pregão de 20/07 (+2,43%) rompendo a resistência dos R$ 82 em volume alto.
3. Resultados (5 anos)
O turnaround está no balanço. A receita saltou de R$ 22,7 bi (2021) para R$ 41,9 bi (2025) — +35,7% em 2024 e +18,2% em 2025 — enquanto o lucro migrou de prejuízos (2021–2022) para ~R$ 2,0 bi. A alavancagem despencou de 13,7× para 0,74× EBITDA, e o fluxo de caixa livre virou positivo (+R$ 0,79 bi) pela 1ª vez após anos de investimento pesado no programa E2. A ressalva de 2025 é a margem EBITDA, que cedeu de 14,4% para 11,4% (mix e custos de ramp-up).
| R$ bi | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Receita líq. | 22,7 | 23,4 | 26,1 | 35,4 | 41,9 |
| EBITDA | 2,16 | 0,53 | 2,72 | 5,10 | 4,79 |
| Margem EBITDA | 9,6% | 2,3% | 10,4% | 14,4% | 11,4% |
| Lucro líq. | −0,27 | −1,05 | 0,78 | 1,92 | 1,99 |
| ROE | −1,7% | −7,1% | 5,3% | 9,3% | 9,5% |
| Dív. líq./EBITDA | 5,7× | 13,7× | 2,2× | 1,1× | 0,74× |
| Fluxo de caixa op. (FCO) | 2,85 | 3,84 | 2,83 | 5,53 | 4,48 |
| Fluxo de caixa livre | −2,38 | −3,37 | −1,72 | −1,91 | 0,79 |
4. Valuation — múltiplos & DCF
Contra os pares industriais da B3, a Embraer negocia com prêmio de lucro (P/L 36×) mas EV/EBITDA de 14×, abaixo dos 20× da WEG, a outra quality global brasileira — ainda que com ROE (8,9%) muito inferior ao da WEG (33%). Vale a ressalva: não há par direto listado (aeroespacial/defesa é único na bolsa; concorrentes Boeing/Airbus não estão na B3), então a comparação abaixo é contra industriais amplos.
| Empresa | P/L | P/VP | EV/EBITDA | DY | ROE |
|---|---|---|---|---|---|
| Embraer (EMBJ3) | 36,4× | 3,23× | 14,1× | 3,7% | 8,9% |
| WEG (WEGE3) | 28,8× | 9,48× | 20,0× | 8,4% | 33,0% |
| Motiva (MOTV3) | 8,8× | 1,76× | 7,2× | 6,3% | 20,2% |
| Rumo (RAIL3) | 24,2× | 1,78× | 6,1× | 0,8% | 7,4% |
| Marcopolo (POMO4) | 5,0× | 1,52× | 5,0× | alto* | 30,3% |
*POMO4 com yield distorcido por provento extraordinário. Múltiplos LTM, preços de 20/07.
DCF — estimativa (premissas explícitas, não é recomendação)
Como a Embraer fatura majoritariamente em dólar, ancoramos o fluxo em USD. Premissas: FCF livre normalizado base de US$ 400 mi (≈ R$ 2,1 bi — recuperação sobre os US$ 152 mi de 2025, à medida que o ciclo de investimento no E2 amadurece e as entregas escalam); crescimento explícito de 10% a.a. por 5 anos; WACC montado sobre custo de capital próprio (Rf UST 10a 4,55% + prêmio + risco-país) combinado ao custo da dívida em dólar (~6,5%), ponderado pela estrutura (81% equity); perpetuidade Gordon; dívida líquida de R$ 3,54 bi; câmbio R$ 5,20. A faixa de sensibilidade é o resultado:
| WACC / g perpétuo | 2,5% | 3,0% | 3,5% |
|---|---|---|---|
| 9,0% | R$ 58,3 | R$ 62,6 | R$ 67,6 |
| 10,5% (base) | R$ 46,0 | R$ 48,7 | R$ 51,7 |
| 12,0% | R$ 37,7 | R$ 39,4 | R$ 41,4 |
5. Proventos
Embraer é história de reinvestimento, não de renda: o yield 12m é de ~1,0%, uma fração do CDI (14,15%). A remuneração vem sobretudo em JCP trimestrais — 2T/25 R$ 0,195, 3T/25 R$ 0,091, 4T/25 R$ 0,202, mais dividendo complementar de R$ 0,111 (dez/25) e JCP de R$ 0,605 (dez/25). O último JCP (2T/26, R$ 0,281) teve data-ex em 23/06 e pagamento previsto para 24/05/2027. Não há novos proventos com data-ex à frente na janela — coerente com o perfil de reinvestimento no ciclo de entregas.
6. Fluxo de players (12 meses e 3 meses)
O intermediador conta uma disputa. Em 12 meses, o BTG acumulou +R$ 2,28 bi líquidos (persistência 62%, 18% do giro) e a XP +R$ 577 mi, enquanto as mesas de Merrill (−R$ 772 mi), Itaú (−R$ 712 mi), Morgan Stanley (−R$ 669 mi) e Goldman (−R$ 425 mi) distribuíram. (Corretora indica quem intermediou, não necessariamente o dono final.)
12 meses (252 pregões)
3 meses (63 pregões)
No recorte de 3 meses, a rotação: o Itaú virou o maior comprador (+R$ 572 mi) e o BTG seguiu acumulando (+R$ 347 mi), enquanto XP e JP Morgan inverteram para vendedores e o Morgan Stanley persistiu distribuindo (−R$ 425 mi). Casado com o preço (fundo em maio, recuperação a R$ 83), a compra doméstica recente acompanhou a retomada. Tape ao vivo de 21/07 não incluído (levantamento pré-abertura).
7. Derivativos — Opções
Livro do vencimento de 21/08/2026 (24 pregões), sobre o fechamento de R$ 83,35. O max pain e a call wall coincidem em R$ 83,57 — praticamente no dinheiro —, com os grandes ímãs de OI em R$ 86,07 (982 mil) e R$ 92,07 (1,04 mi, onde há um bloco relevante de puts). PCR de OI em 1,07–1,31 (livro levemente carregado em put = viés defensivo).
| Nível (venc. 21/08) | Strike | OI | vs R$ 83,35 |
|---|---|---|---|
| Max pain / Call wall | R$ 83,57 | 537 mil | +0,3% |
| Ímã de gamma | R$ 86,07 | 982 mil | +3,3% |
| Ímã / Put wall | R$ 92,07 | 1,04 mi | +10,5% |
| Gamma flip | R$ 99,16 | — | +19,0% |
Regime de gamma
GEX total positivo (+R$ 106 mi/ponto): dealers comprados em gamma → vendem força/compram fraqueza → regime de mean-reversion e pinning (vol amortecida) enquanto o spot ficar abaixo do flip de R$ 99. Ímãs de curto prazo em R$ 83,5–86.
Volatilidade implícita
Viés defensivo
IV ATM 39,8% — percentil 72 de 12 meses e +11,5 pp acima da vol realizada (28,3%). Subiu de ~32% no início de julho: opções sendo bidadas para o resultado de 10/08.
Estrutura a termo em contango (+2,5 pp) com o miolo curto empolado nas séries em torno dos resultados; skew levemente defensivo (put OTM +0,9 pp vs call OTM), sem stress. No dia 20/07 houve execução casada relevante: o BTG montou um combo de ~R$ 33 mi no strike 86,07 (400 mil ações + 400 mil calls + 400 mil puts, mesma corretora nas pontas) — assinatura de conversão/sintético de tesouraria (hipótese; o EOD não dá o lado das pernas), não fluxo direcional.
8. Aluguel (BTB) & Termo
Do lado da tradabilidade, nada trava o short: estoque de aluguel de R$ 1,51 bi a taxa simbólica de 0,07% a.a. (percentil 26). O estoque inchou +39% em 21 pregões, mas com a taxa colapsando a 3% da média de 63 dias — leitura de oferta/arbitragem de JCP, não de tese vendida agressiva (short interest de apenas 2,5% do free float, days-to-cover de 4,5). Papel fácil e barato de tomar emprestado — sem risco de squeeze.
9. Papel nos índices, liquidez & risco
EMBJ3 é constituinte do Ibovespa e do IBrX e figura entre os ~12 papéis mais líquidos da B3: ADTV de R$ 411 mi (US$ 78 mi) em 12 meses, percentil 97,9, respondendo por 2,05% do giro do mercado. Execução confortável — uma ordem de R$ 5 mi consome só 1,2% do ADTV. Contribuição de pontos ao índice no dia não computada (pré-abertura de 21/07).
10. Smart-money, governança & CVM 44
A confluência de sinais é fraca: dos quatro monitorados (compra de insider, recompra ativa, comprador dominante, short-covering), só um acende — a recompra ativa (1,51% do capital). Há dois programas de recompra vigentes (1,51%, aprovado em 05/03/26, e 1,47%, de 06/11/25, ambos via BTG), mas com a finalidade declarada de lastrear a remuneração variável e o plano de opções dos administradores — recompra de governança/incentivo, não devolução pura de capital. Trade de blocos casados do dia (o combo de R$ 33 mi do BTG) reforça a leitura de tesouraria/estrutura.
Na Resolução CVM 44, a atividade de insiders é imaterial e quieta em 12 meses (saldo levemente vendedor, ~R$ 65 mil líquidos, 5 negócios). O único sinal de timing limpo: um membro do Conselho Fiscal vendeu 1.200 ações a R$ 102,80 em 23/01/2026 — exatamente na região da máxima histórica da série.
| Data | Cargo | Operação | Qtd | Preço | Corretora |
|---|---|---|---|---|---|
| 23/01/26 | Conselho Fiscal | Venda | 1.200 | R$ 102,80 | Planner |
| 25/11/25 | Órgão Estatutário | Venda | 250 | n/d | UBS |
| 22/09/25 | Órgão Estatutário | Compra | 3.000 | n/d | UBS |
Remuneração detalhada, partes relacionadas, auditor e diversidade do conselho não foram destrinchados nesta edição (itens opcionais do dossiê).
11. Fatos, agenda & notícias
Agenda: informe de governança (CGVN) em 31/07; resultado do 2T26 em 10/08/2026; 3T26 em 10/11. Fatos relevantes (12m): mudança de código de EMBR3 para EMBJ3 (03/11/25); programas de recompra (nov/25 e mar/26); equity swap com o Itaú sobre 10,9 mi de ações (1,5%); redução da Brandes para 4,95%.
| Data | Manchete |
|---|---|
| 21/07/26 | Grupo Abra faz 1º pedido de 20 jatos Embraer E2, diversificando de Boeing e Airbus |
| 20/07/26 | Agenda de balanços do 2º tri na B3 — Embraer reporta em 10/08 |
| out/25 | Embraer atinge carteira recorde de US$ 31,3 bi no 3T25 |
| out/25 | TrueNoord encomenda 20 E195-E2 (+30 em direitos de compra) |
| nov/25 | Air Côte d’Ivoire encomenda 4 E175 para conectividade regional |
12. Contexto macro
Para uma exportadora que fatura em dólar, o câmbio é a variável-chave: USD/BRL a 5,09 (Focus projeta 5,20) é vento a favor da receita convertida, ainda que a recente firmeza do real seja leve contra-fluxo de curto prazo. O ciclo global de corte de juros (Fed 3,75%, UST 10a 4,55%) ajuda o financiamento de aeronaves e a demanda das companhias aéreas — Brent a US$ 88 é um custo de combustível a monitorar do lado dos clientes. No Brasil, Selic 14,25% (COPOM em 05/08) e CDI 14,15% deixam o DY de ~1% e o earnings yield de 2,7% muito abaixo do juro real — o papel é precificado como crescimento, não como valor/renda.
13. Síntese
- Carteira recorde US$ 31,3 bi + fluxo contínuo de encomendas (Abra 20× E2 em 21/07).
- Desalavancagem de 13,7× para 0,74× EBITDA e 1º FCF livre positivo (2025).
- Receita +18–36% a/a; EV/EBITDA (14×) abaixo da WEG (20×).
- Liquidez de elite (top-12 B3) e balanço com R$ 10,7 bi em caixa.
- DCF conservador aponta R$ 39–68 — abaixo da tela; preço embute a conversão do backlog.
- Lucro 1T26 −59% e margem EBITDA 2025 em queda (ramp-up/mix).
- DY ~1% vs CDI 14% — sem colchão de renda; múltiplo de crescimento exige entrega.
- Sensibilidade a câmbio, cadeia de suprimentos aeronáutica e demanda global.