VVEO3 — Viveo (CM Hospitalar)
Viveo (VVEO3): distribuidora líder em crise de balanço executa aumento de R$870mi a R$0,90 (diluição ×5) para desalavancar; barata por ativo (P/VP 0,12×), DCF R$1,20–2,25/ação, aluguel +1.226%.
VVEO3 — Viveo (CM Hospitalar)
CM Hospitalar S.A. (marca Viveo) · Saúde / Comércio e Distribuição de Medicamentos e Outros Produtos · Novo Mercado (desde 08/05/2021) · Ribeirão Preto (SP) · CNPJ 12.420.164/0001-57 · CVM 25682. Cotação ao vivo 01/07/2026; balanços CVM (5 anos); aluguel/opções/fluxo até 30/06.
1. Capa & placar de valuation
Tese em uma frase: a Viveo é a maior distribuidora de produtos para saúde do Brasil (R$ 11,6 bi de receita), mas negocia como penny stock (R$ 0,70) por causa de uma crise de balanço — voltou ao lucro em 2025 (R$ 18 mi) após prejuízo de R$ 1,4 bi em 2024, e executa um aumento de capital de R$ 870 mi a R$ 0,90/ação (deságio ~30%, até 966 mi de novas ações vs 194 mi existentes) para desalavancar via conversão de debêntures. A ação está barata por ativo (P/VP 0,12×) e o DCF aponta valor bem acima do preço, mas o desconto reflete o risco de execução, a diluição brutal e a alavancagem ainda alta. O aluguel explodiu +1.226% em 5 dias — assinatura da arbitragem de subscrição.
2. A empresa & estrutura societária
A CM Hospitalar (Viveo) é a maior plataforma de distribuição e serviços para o ecossistema de saúde do Brasil — medicamentos, materiais médico-hospitalares, equipamentos e serviços para hospitais, clínicas e laboratórios. Cresceu agressivamente via M&A entre 2021 e 2023 (a receita saltou de R$ 6,2 bi para R$ 11,1 bi) e hoje enfrenta a digestão dessa expansão. Controle privado, sede em Ribeirão Preto (SP), listada no Novo Mercado (só ações ON).
Estrutura de capital
| Ações ON | 194.301.777 |
| Ações PN | 0 |
| Free float | 99,08% |
| No IBOV? | Não |
Acionistas relevantes (≥5%)
| Acionista | %ON | Controle |
|---|---|---|
| Genoma VI FIP | 21,61% | controlador+acordo |
| Genoma I FIP | 15,58% | controlador+acordo |
| Perea Capital (EUA) | 15,02% | investimento |
| Dynamo | 8,97→4,70% | reduziu 30/06 |
O bloco de controle soma 37,53% do capital votante (fundos Genoma VI e Genoma I, ligados à DNA Capital, sob acordo de acionistas), com free float de 99,08% — o que dá enorme sensibilidade do preço ao fluxo. Dois movimentos recentes na base: a Perea Capital (EUA) declarou 15% em 05/06 (caráter de investimento), e a Dynamo reduziu de 8,97% para 4,70% em 30/06 — saída relevante às vésperas do aumento de capital, um sinal de cautela de um gestor de referência.
3. Preço & desempenho
VVEO3 D1, 12 meses: oscilou R$ 0,83–1,84; caiu de R$ 1,24 (25/06) para R$ 0,78 (26/06) no anúncio do aumento de capital, fundo em R$ 0,64 (29/06), fechando 01/07 em R$ 0,70.
| Métrica | Valor | Métrica | Valor |
|---|---|---|---|
| Fechamento (01/07) | R$ 0,70 | Máx 12m | R$ 1,84 |
| Retorno 12m | ≈ −45% | Mín 12m | R$ 0,64 |
| ADTV (12m) | R$ 2,09 mi | Percentil liquidez | 64 (posição 194/537) |
O ano foi de volatilidade extrema típica de penny stock. O evento decisivo foi 26/06/2026: com o anúncio do aumento de capital a R$ 0,90, a ação abriu em gap e caiu de R$ 1,24 para R$ 0,78 num único pregão (−37%), girando 26,6 milhões de ações (~8× a média). Foi ao fundo de R$ 0,64 em 29/06 e desde então oscila ancorada perto do preço de subscrição. O +10,94% de 30/06 — que a colocou como "top alta da Saúde" no pregão — foi apenas um repique técnico dentro do tombo, não reversão de tendência; hoje (01/07) devolveu parte, fechando em R$ 0,70.
4. Resultados (5 anos)
| Ano | Receita | EBITDA | Mg. EBITDA | Lucro líq. | ROE | DL/EBITDA |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2021 | 6,22 bi | 590 mi | 9,5% | 395 mi | 18,4% | 1,29× |
| 2022 | 8,75 bi | 540 mi | 6,2% | 260 mi | 11,4% | 4,24× |
| 2023 | 11,08 bi | 897 mi | 8,1% | 360 mi | 10,9% | 3,07× |
| 2024 | 11,58 bi | −552 mi | −4,8% | −1,42 bi | −73,5% | neg. |
| 2025 | 11,57 bi | 862 mi | 7,5% | 18 mi | 0,9% | 3,33× |
A trajetória conta a história: crescimento agressivo de receita (6,2 bi → 11,1 bi entre 2021 e 2023, muito via aquisições) que estourou o balanço. 2024 foi o ano do desastre — prejuízo de R$ 1,42 bi e EBITDA negativo (impairment/reestruturação), ROE de −73%. Em 2025 houve recuperação operacional: o EBITDA voltou a R$ 862 mi (margem 7,5%, a melhor desde 2023) e a empresa entregou lucro simbólico de R$ 18 mi — mas a receita parou de crescer (−0,1% YoY) e a margem líquida é de meros 0,16%, corroída pelo resultado financeiro de −R$ 486 mi. O 1T26 (maio) mostrou receita de R$ 2,83 bi (+1,7% YoY), margem bruta expandindo a 15,8% (melhor desde 2023) e EBITDA ajustado de R$ 208 mi — sinais de estabilização, mas alavancagem em 3,88×.
5. Valuation — múltiplos vs setor
| Empresa | P/L | P/VP | EV/EBITDA | DY | ROE |
|---|---|---|---|---|---|
| VVEO3 | 11,4× | 0,12× | 3,46× | — | 1,1% |
| PGMN3 (Pague Menos) | 8,5× | 0,78× | 2,79× | 21,3% | 9,2% |
| PFRM3 (Profarma) | 8,1× | 0,52× | 2,84× | 18,7% | 6,5% |
| PNVL3 (Panvel) | 12,4× | 1,26× | 5,92× | 16,2% | 10,2% |
| BLAU3 | 9,8× | 1,05× | 7,17× | 17,3% | 10,7% |
| RADL3 (RD) | 22,8× | 4,02× | 6,81× | 5,3% | 17,6% |
Na comparação setorial, a VVEO3 é a mais barata por ativo — P/VP de 0,12× (só HAPV3, em prejuízo, é menor) e EV/EBITDA de 3,46×, abaixo dos pares diretos de distribuição (PGMN3 2,79×, PFRM3 2,84×). Mas a diferença é qualitativa: enquanto Pague Menos e Profarma pagam DY de ~19–21% com ROE de 6–9%, a Viveo tem ROE de 1,1% e não paga dividendos — o desconto reflete a fragilidade da geração de valor, não uma pechincha óbvia.
6. Valuation — DCF (estimativa, premissas abaixo)
| Cenário de diluição | Ações | Valor justo/ação | vs R$ 0,70 |
|---|---|---|---|
| Diluição cheia (966 mi novas) | 1.160,7 mi | R$ 1,63 | +133% |
| Diluição parcial (mín. 474 mi) | 668,7 mi | R$ 2,83 | +304% |
Sensibilidade WACC × g perpetuidade (justo/ação, dil. cheia)
| WACC ↓ / g → | 3,5% | 4,5% | 5,5% |
|---|---|---|---|
| 14,4% | R$ 1,73 | R$ 1,97 | R$ 2,25 |
| 15,4% | R$ 1,44 | R$ 1,63 | R$ 1,86 |
| 16,4% | R$ 1,20 | R$ 1,35 | R$ 1,53 |
Premissas (estimativa — não é recomendação): FCF base = EBITDA normalizado (média 2021–23+2025, ex-2024 de impairment ≈ R$ 722 mi) − capex de manutenção (1,5% da receita ≈ R$ 174 mi) − IR 34%, resultando em FCF unlevered de ~R$ 416 mi. WACC 15,4%: Ke = Tesouro BR 10a (14,43%) + β 1,1 × ERP 5% = 19,9%; Kd = CDI+1,7% (15,99%) líquido de IR = 10,6%; ponderado pela estrutura de capital pós-aumento (E ~52% / D ~48%, já refletindo a conversão de R$ 870 mi de debêntures em equity). Perpetuidade Gordon com g 4,5% (≈ inflação longa do Focus). Dívida líquida pós-aumento ≈ R$ 2,0 bi. A faixa de sensibilidade (R$ 1,20–2,25) é o resultado, não o ponto central.
O DCF aponta valor justo consistentemente acima do preço de mercado (R$ 0,70) mesmo no cenário de diluição cheia — o que sugere que o mercado precifica um prêmio de risco de execução alto (a possibilidade de a recuperação não se materializar, de a alavancagem persistir ou de a diluição vir maior). É um caso de "barato com motivo", não de assimetria óbvia.
7. O aumento de capital (o evento central)
Aprovado em 26/06, o aumento por subscrição privada é massivamente diluitivo: até 966,4 milhões de novas ações ON, quase 5× a base atual de 194,3 milhões. O preço de R$ 0,90 traz deságio de ~30% sobre a média dos 30 pregões anteriores. A integralização pode ser em dinheiro ou por capitalização de créditos de debêntures (CMPH14, VVEO15, VVEO16, VVEO17) — ou seja, é em boa parte uma conversão de dívida em capital para desalavancar. Isso se conecta à reestruturação de debêntures aprovada em junho: vencimentos estendidos para 30/01/2034, carência de amortização até 30/07/2029, remuneração ajustada para CDI+1,70% e nova definição de EBITDA para covenants. Subscrição mínima de 474,4 mi de ações (R$ 427 mi) admite homologação parcial.
8. Derivativos — aluguel (BTB), o combustível do short
O aluguel de VVEO3 explodiu de R$ 1,24 mi (24/06) para R$ 12,5 mi (30/06) — 10× em quatro pregões (+1.226% em 5d, +1.470% em 63d), quase tudo em "Registro" (posições BTB estruturadas). Esse é o fingerprint da arbitragem de subscrição: com a nova ação a R$ 0,90 e o papel em bolsa a R$ 0,70, quem tem o direito de subscrição vende ação alugada à vista para travar o spread. O termo em aberto acompanhou (de 982 mil para 1,09 mi de ações). Short interest de 3,96% (6,64% do float) e days-to-cover de 3,75 — elevado, criando risco de squeeze se o preço reagir acima de R$ 0,90.
Tomadores do aluguel (ponta short)
| Corretora | Net tomado | Taxa |
|---|---|---|
| UBS | +1.126.522 | 1,02% |
| Necton (BTG) | +1.021.759 | 0,10% |
| Tullett Prebon | +587.471 | 1,93% |
| Ágora | +213.121 | 0,10% |
Concentração & doadores
| Corretora | Papel | Taxa |
|---|---|---|
| BTG | 42% do tomado (HHI 2.443) | 7,75% |
| J.P. Morgan | doador 550k | 0,15% |
| Toro | doador 400k | 5,00% |
| Mirae | doador 308k | 0,10% |
O BTG domina 42% do fluxo de aluguel (taxa média 7,75% a.a.) e os maiores net-tomadores (ponta short) são UBS e Necton/BTG — coerente com o BTG sendo também o maior comprador líquido no fluxo à vista (armando as duas pernas da arbitragem).
9. Derivativos — opções & termo
O book de opções da VVEO3 é raso e ilíquido — o open interest concentra-se numa call VVEOA20 (100 mil contratos) e uma put VVEOW100 (18 mil), sem profundidade para leituras de gamma/skew relevantes. Não há regime de dealer significativo a extrair. O que importa nos derivativos está no aluguel e no termo (seção 8): o termo em aberto (VVEO3T) cresceu de 982 mil para 1,088 mi de ações entre 24 e 30/06, com preço a termo em torno de R$ 1,40 — consistente com a montagem da estrutura de arbitragem do direito de subscrição.
10. Fluxo de players (~12 meses / 249 pregões)
Top compradores líquidos (R$)
Top vendedores líquidos (R$)
Na janela retida (~249 pregões), o BTG acumulou +R$ 31,9 mi líquidos — o comprador mais persistente, ativo em todos os 249 pregões — contra a Merrill vendendo −R$ 29,4 mi. Como o preço caiu no período, quem acumulou (BTG) comprou na baixa. Note a coerência: o BTG está comprado no à vista e domina o aluguel — está montado nas duas pontas da estrutura.
11. Liquidez & risco de execução
Liquidez modesta: ADTV de R$ 2,09 mi/dia (percentil 64). Uma ordem de R$ 100 mil já representa 4,78% do giro diário (operável com cautela); acima de R$ 500 mil o impacto de execução passa de 20% — não recomendável sem fracionar. É um papel para posições pequenas ou execução paciente; o tamanho penny e a liquidez fina amplificam a volatilidade que se viu no tombo de 26/06.
12. Insiders (CVM 44) — administração comprando
| Data | Cargo | Operação | Qtd | Preço |
|---|---|---|---|---|
| 22/04/26 | Diretoria | Compra | 10.000 | 1,74 |
| 17/04/26 | Diretoria | Compra | 40.000 | 1,65 |
| 02/04/26 | Diretoria | Compra | 20.000 | 1,32 |
| 09/12/25 | Diretoria | Compra | 100.000 | 1,55 |
| 15/08/25 | Diretoria | Compra | 55.000 | 0,93 |
Sinal qualitativo positivo: nos últimos 12 meses foram 10 negócios de insiders, todos de compra (net +408 mil ações, zero vendas), a preços entre R$ 0,93 e R$ 1,74, via Itaú, BTG e XP. A diretoria vem comprando consistentemente — voto de confiança na recuperação. Ressalva: os preços de compra estão bem acima do nível atual (R$ 0,70), ou seja, quem comprou está no prejuízo, e nenhuma compra apareceu já sob o novo patamar pós-diluição.
13. Governança — partes relacionadas
Há um contrato de mútuo conversível em ações com a coligada Drogaria X Farmácia (aporte à companhia para capital de giro), taxa de 1,73% a.a. e prazo de 3 anos, com saldo em aberto ao fim de 2025 (valores de R$ 1,8–2,2 mi). É a transação com parte ligada sinalizada — de porte pequeno e a taxa abaixo de mercado (favorável à companhia, que é a tomadora). Não há red-flags adicionais de remuneração ou troca de auditor no material coletado. A companhia é categoria A na CVM, situação ativa.
14. Fatos, comunicados & agenda
- 30/06: Dynamo reduz participação de 8,97% para 4,70% (Reuters/CVM).
- 26/06: aprovado aumento de capital de até R$ 869,8 mi a R$ 0,90/ação (fato relevante).
- 08–11/06: AGDEBs aprovam reestruturação das 4ª–7ª emissões de debêntures — vencimento estendido para 2034, CDI+1,70%.
- 05/06: Perea Capital (EUA) declara 15% de participação.
- Agenda: prazo de subscrição até 17/08/2026; ITR do 2T26 previsto para 11/08; informe de governança (CGVN) até 31/07.
15. Contexto macro & síntese
O pano de fundo macro é adverso para uma empresa alavancada: Selic em 14,25% e CDI a 14,29% tornam a dívida em CDI+spread cara — daí a urgência da desalavancagem via aumento de capital. A distribuição de saúde é defensiva quanto à demanda (medicamentos e materiais hospitalares têm consumo inelástico), mas o custo financeiro (−R$ 486 mi em 2025) devora o operacional. Um eventual ciclo de corte de juros à frente seria o principal vetor de reprecificação.
Forças: líder de mercado (R$ 11,6 bi de receita); recuperação operacional em 2025 (EBITDA R$ 862 mi, margem bruta expandindo no 1T26); insiders comprando; BTG acumulando +R$ 32 mi; reestruturação de debêntures alonga o passivo até 2034; muito barata por ativo (P/VP 0,12×, EV/EBITDA 3,46×); DCF aponta valor acima do preço.
Riscos: diluição brutal (966 mi de novas ações a R$ 0,90, ×5 a base); alavancagem ainda em 3,3–3,9×; margem líquida quase nula (0,16%); ROE de 1,1%, sem dividendos; Selic alta encarecendo a dívida; Dynamo reduzindo posição; liquidez fina (ADTV R$ 2 mi); aluguel explodindo (+1.226%) e short interest elevado.
Referência factual: o preço de mercado (R$ 0,70) negocia com deságio sobre o preço de emissão (R$ 0,90) e bem abaixo do DCF (faixa R$ 1,20–2,25/ação na diluição cheia) — o desconto mede a incerteza sobre a execução do aumento de capital e da desalavancagem. Dossiê factual, não recomendação.