BBAS3 — Banco do Brasil

BBAS3 a 0,58x patrimônio não é barganha: com ROE em 7,98% o valor justo é R$ 7,16 — o preço de R$ 20 já paga por uma recuperação que o balanço ainda não mostra.

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Estudo Fundamentalista

BBAS3 — Banco do Brasil

09/07/2026 · Dossiê completo: o desconto que não é desconto

1. Capa & placar de valuation

Tese-resumo. BBAS3 negocia a 0,58x valor patrimonial — o terceiro P/VP mais baixo do setor bancário na B3. Mas o desconto não é anomalia: é preço justo para um banco que viu o ROE colapsar de 19,1% (2023) para 7,98% (LTM), cortou o payout para 30% e entrega dividend yield de 5,5% num país com CDI a 14,15%. A pergunta não é "está barato?" — a matemática do desconto só fecha se a rentabilidade voltar. Aos 7,98% de ROE atual, o valor justo por Gordon é R$ 7,16. Aos R$ 20,00, o mercado já embute retorno normalizado próximo de 11%. O papel deixou de ser uma barganha de múltiplo e virou uma aposta na reversão do ciclo de crédito do agro.

2. A empresa

Banco do Brasil S.A. (CNPJ 00.000.000/0001-91), Novo Mercado, setor Financeiro / Intermediários Financeiros / Bancos, sediado em Brasília. Controle estatal: a União, via Secretaria do Tesouro Nacional, detém 50,0000011% do capital — controle por uma fração de ação, literalmente. Free float de 49,6% do total; 1,54 milhão de acionistas pessoa física (99% da base).

Estrutura de capital simples: só ordinárias, sem PN — logo, todo o dossiê roda sobre a única perna BBAS3 (BBAS11/BBAS12 são ISINs administrativos). Não há programa de recompra ativo. 206 fundos CVM carregam o papel, R$ 1,56 bi de valor de mercado agregado na janela.

FundoGestorR$ mmQtd
BB Ações BB FIFBB Gestão de Recursos338,116.656.974
Argos FIF Ações Ext.Apolo Investimentos170,98.421.015
Argos FIF (2ª classe)Apolo Investimentos119,65.890.179
Oiti FIF MM Créd. Priv.Itaú Unibanco116,35.729.945
Caieiras FIF MMMorgan Stanley87,64.317.416

Nota de governança: o maior detentor é um fundo do próprio banco (BB Gestão de Recursos, marcado como parte relacionada). Não é irregular, mas significa que a maior posição comprada não é um voto de confiança de terceiro.

3. Preço & desempenho

O ano tem duas metades. De janeiro a fevereiro, o papel disparou de R$ 21 para R$ 27,59 (máxima de 52 semanas em 25/02) — a expectativa de virada de resultado após o balanço de 2025. De março em diante, devolveu tudo: −27,5% da máxima, e uma queda de −17,86% em 63 pregões. A quebra decisiva foi 14/05/2026, com o ITR do 1T26 (lucro −25,6% YoY): gap de abertura em R$ 19,88 contra fechamento anterior de R$ 20,77, e 69,9 milhões de ações negociadas.

MétricaValor
Retorno 1d+2,41%
Retorno 21d+5,26%
Retorno 63d−17,86%
Retorno 126d−8,21%
Retorno 252d−7,58%
YTD−7,41%
Máx / mín 52 semanasR$ 27,59 / R$ 17,77
Distância da máxima−27,51%
Vol. realizada 21d / 252d18,0% / 28,83%
Beta vs IBOV (252d)1,228
Correlação vs IBOV (252d)0,715
Retorno 2 anos−16,77%
Máxima históricaR$ 28,74 (14/05/2025)

Dois anos de retorno negativo (−16,77%) num período em que o CDI acumulou algo próximo de 30% compostos. Beta 1,23 com correlação de apenas 0,715 — o papel amplifica o IBOV mas tem uma fonte de risco própria que o índice não explica: o ciclo de crédito rural. Vol realizada de 21 dias caiu a 18%, o menor patamar da janela, sinal de acomodação após o choque de maio.

4. Resultados (5 anos)

R$ bi20212022202320242025
Receita125,9236,5265,4273,5319,5
Lucro bruto59,774,388,7104,5101,0
Lucro líquido19,729,833,229,216,8
Margem líquida15,66%12,62%12,49%10,67%5,25%
ROE13,50%18,30%19,11%15,83%8,67%
ROA1,04%1,49%1,54%1,22%0,68%
Patrimônio líquido146,1163,1173,6184,2193,6
Ativo total1.8992.0082.1542.3992.455

Esta é a tabela que explica o preço. O lucro de 2025 (R$ 16,8 bi) foi metade do de 2023 (R$ 33,2 bi) — queda de 42,5% num único ano — enquanto o balanço não parou de crescer: ativo total subiu 14% no mesmo intervalo. Um banco que expande o balanço e encolhe o lucro está fazendo uma coisa só: provisionando. A margem líquida caiu de 12,5% para 5,25%.

E não parou. O ITR do 1T26 (ref. 31/03/2026, o dado mais atual) traz lucro de R$ 3,11 bi, −25,6% YoY, com receita ainda subindo +9,4%. Margem líquida de 3,96% no trimestre — abaixo até do já deprimido ano de 2025. O ROE anualizado do trimestre roda perto de 6,3%. A tese de "o pior já passou" ainda não tem confirmação no número; tem só o preço apostando nela.

A origem é conhecida e está nas próprias transações com partes relacionadas do BB: o banco é o agente do Plano Safra — R$ 60,2 bi de equalização de juros autorizada para 2024/2025 e R$ 58,0 bi para 2025/2026, com saldos existentes de R$ 22,7 bi e R$ 29,5 bi. O BB acaba de anunciar R$ 210 bi para financiar a Safra 2026/2027. A inadimplência do agronegócio — safras ruins, produtores em recuperação judicial — é o motor do provisionamento. É risco de crédito concentrado num setor, com o controlador ditando a política de crédito.

5. Valuation — múltiplos & modelo

5.1 Contra os pares

TickerP/LP/VPDY %ROE %Earn. yield %Market cap (R$ bi)
BMGB42,100,2539,3211,8847,721,2
ABCB44,090,5622,0813,6024,483,3
BBAS37,300,585,517,9813,71114,6
SANB117,530,7717,5610,2113,2998,6
BRSR65,640,8520,8115,1117,729,9
BBDC47,630,9920,3513,0213,11179,0
ITUB410,512,2017,3020,909,52483,2
BPAC1118,463,894,4721,055,42325,7

Aqui mora a leitura errada mais comum. Sim, BBAS3 tem o 3º menor P/VP. Mas P/VP sem ROE não diz nada — para banco, o múltiplo patrimonial é função direta da rentabilidade sobre o patrimônio. Compare as duas pontas:

  • ITUB4: paga 2,20x o patrimônio, entrega ROE de 20,9%. Múltiplo/ROE ≈ 0,105.
  • BBAS3: paga 0,58x o patrimônio, entrega ROE de 7,98%. Múltiplo/ROE ≈ 0,073.

O BB é relativamente mais barato nessa razão, mas a diferença é muito menor do que o P/VP isolado sugere. E há um número que destrói a narrativa de "vaca leiteira": o DY de 5,51% é o segundo pior da tabela, atrás apenas do BPAC11 (banco de crescimento, que não paga dividendo por escolha). Bradesco paga 20,35%. Santander, 17,56%. Itaú, 17,30%. O BB, que historicamente era comprado por renda, hoje rende menos de metade do CDI.

5.2 Modelo de valor justo (Gordon para banco)

DCF de fluxo de caixa livre não se aplica a banco — FCO e FCI são movimentos de carteira de crédito e tesouraria, não geração de caixa operacional (o FCO de 2025 foi R$ 159 bi, o FCI −R$ 168 bi; ruído puro). O modelo correto é o Gordon patrimonial:

Valor justo = VPA × (ROE − g) / (Ke − g)

Premissas explícitas:

  • VPA = R$ 34,36 — PL de R$ 196,9 bi (1T26) ÷ 5.730.834.040 ações.
  • Ke = 17,5% — ancorado no juro longo real: Tesouro BR 10a a 14,605% + prêmio de risco de renda variável de ~5%, ajustado pelo beta de 1,23 e descontado pelo perfil de banco grande. Não é um número confortável, mas é o que a curva entrega: com DI 1a a 14,15% e CDS 5Y a 126,9 bps, exigir menos de 17% de um estatal alavancado seria autoengano.
  • g = 5,5% — crescimento perpétuo ≈ inflação longa (Focus IPCA 5,30%) + fração de crescimento real.
  • ROE — a variável em disputa. LTM: 7,98%. Média 2021–2024: 16,7%.
Ke \ ROE8%10%12%14%16%
15,5%8,5915,4622,3329,2136,08
16,5%7,8114,0620,3026,5532,80
17,5%7,1612,8918,6124,3430,07
18,5%6,6111,8917,1822,4727,75
19,5%6,1411,0415,9520,8625,77

Estimativa — premissas acima, não é recomendação. Leia a tabela pelo que ela realmente diz: no cenário-base (Ke 17,5%) e com o ROE de hoje (7,98%), o valor justo é R$ 7,16 — 64% ABAIXO do preço de tela. O papel a R$ 20,00 só se justifica se o ROE voltar para a faixa de 11%–12%. Ou seja: o mercado não está descontando o BB. Está pagando adiantado por uma recuperação que ainda não apareceu no balanço.

Sanity-check pelo múltiplo: R$ 20,00 ÷ VPA 34,36 = 0,58x. Para um banco com Ke 17,5% e g 5,5%, 0,58x implica ROE de equilíbrio ≈ 12,5%. É exatamente a mesma conclusão por outra porta. O ITR do 1T26 entregou ROE anualizado de ~6,3%. A distância entre o embutido e o entregue é o risco inteiro da tese.

6. Proventos

AprovaçãoEx-datePagamentoR$/açãoReferente
15/05/202601/06/202611/06/20260,059682T26
11/05/202601/06/202611/06/20260,081581T26
12/02/202602/03/202611/03/20260,070101T26
10/02/202623/02/202605/03/20260,216304T25
10/11/202502/12/202512/12/20250,045804T25
10/11/202501/12/202511/12/20250,071903T25
19/05/202502/06/202512/06/20250,090402T25
14/05/202502/06/202512/06/20250,334301T25

A trajetória dos proventos é a tese em miniatura. O JCP referente ao 1T25 foi de R$ 0,33430/ação. O referente ao 1T26: R$ 0,08158 — um corte de 76%. A apresentação institucional do 1T26 é explícita: payout de 30% para 2026, R$ 0,15/ação no trimestre, R$ 866 milhões distribuídos.

Com payout de 30% sobre o LPA LTM de R$ 2,74, o dividendo projetado é R$ 0,82/ação → DY de 4,1% sobre R$ 20,00. Contra CDI de 14,15%, o acionista está sendo pago com menos de um terço da renda fixa para carregar beta 1,23 e risco de crédito agro. O caso de renda só volta a fechar se: (a) o lucro normalizar para ROE ~14% (R$ 27,6 bi), e (b) o payout voltar a 40%. Nesse cenário: R$ 1,92/ação, DY de 9,6%. Ainda abaixo do CDI. É uma tese de valorização de capital, não de dividendo — e quem comprar BBAS3 "pelos dividendos" está comprando a ação errada pelo motivo errado.

Ponto de estrutura de capital, relevante: o BB repactuou o cronograma do IHCD com o Tesouro (comunicado de 26/06/2026). Saldo de R$ 4,1 bi, amortizado em parcelas de R$ 100 mi em jul/2026 e jul/2027, R$ 1 bi em jul/2028. O controlador esticou o prazo — alívio de capital que sinaliza, entre linhas, que a folga de capital não é confortável.

7. Fluxo de players (12 meses × 3 meses)

A seção mais informativa deste relatório. O fluxo inverteu completamente entre a janela longa e a curta.

12 MESES (252 pregões) — AcumuladoresNet R$ mmPersistência
UBS+1.087,951,6%
BTG+938,656,3%
JP Morgan+605,051,2%
Goldman+442,450,4%
Itaú+280,248,0%
Necton+257,544,8%
Ágora+200,048,4%
12 MESES — DistribuidoresNet R$ mmPersistência
Merrill−1.192,144,4%
Genial−993,146,4%
Tullett−352,747,0%
Ativa−340,248,0%
XP−316,044,4%
Citigroup−307,248,4%
Santander−140,450,4%
3 MESES (63 pregões) — AcumuladoresNet R$ mmPersistência
XP+868,165,1%
BTG+718,463,5%
Genial+277,265,1%
Ágora+87,050,8%
Safra+86,049,2%
NovaFutura+68,974,6%
UBS+66,055,6%
Inter+62,676,2%
C6+58,287,3%
Nu Invest+44,981,0%
3 MESES — DistribuidoresNet R$ mmPersistência
Citigroup−593,527,0%
Merrill−562,534,9%
JP Morgan−431,139,7%
Goldman−277,641,3%
Morgan−217,434,9%
Itaú−83,552,4%
Mirae−82,950,8%

A rotação é gritante. Nos 12 meses, o gringo comprou: UBS (+1,09 bi), JP Morgan (+605 mm), Goldman (+442 mm). Nos últimos 3 meses — exatamente o período do tombo de −17,86%os mesmos nomes viraram vendedores: JP Morgan (−431 mm), Goldman (−278 mm), Morgan (−217 mm), somados a Citigroup (−593 mm) e Merrill (−563 mm). A persistência do Citi de 27% e do Merrill de 34,9% significa que venderam em ~3 de cada 4 dias ativos: distribuição sistemática, não realização pontual.

Do outro lado da ponta, quem comprou? XP (+868 mm, persistência 65%), BTG (+718 mm), Genial (+277 mm) — e o pelotão de varejo digital com as maiores persistências da tabela: C6 (87,3%), Nu Invest (81%), Inter (76,2%), NovaFutura (74,6%). Note o giro de mão da Genial: −993 mm em 12 meses, +277 mm em 3 meses. E da XP: −316 mm em 12m, +868 mm em 3m.

A leitura é desconfortável e precisa ser dita sem rodeio: o institucional estrangeiro está entregando papel para o varejo brasileiro, na queda. Persistência de 87% no C6 não é gestor tático — é pessoa física comprando na baixa porque "BB nunca quebra" e "está barato pelo P/VP". A mesma pessoa física que representa 99% dos 1,5 milhão de acionistas do banco. Historicamente, essa não é a ponta que acerta o fundo. Não é prova de que o gringo tem razão — mas quando o dinheiro informado sai e o dinheiro pulverizado entra durante uma deterioração de ROE confirmada por balanço, o ônus da prova fica com quem está comprando.

Corroborando: o Citi cortou preço-alvo dos bancos brasileiros em 24/06/2026, citando cenário macro mais desafiador, custo de capital próprio mais elevado e pressões sobre qualidade de ativos e crédito ao consumidor. O Citi é o maior vendedor líquido do papel em 3 meses.

8. Derivativos — Opções

IV rank de 10,63 na janela de 252 pregões (percentil 16,3) — a volatilidade implícita está no fundo do poço histórico, faixa de 18,95%–65,14%. Opção de BBAS3 está barata. Para quem quer expressar direção (para qualquer lado) ou proteger carteira, comprar prêmio aqui custa pouco. E há um detalhe que reforça: o prêmio sobre a vol realizada de 21d é de apenas 5,86 pp — mas a realizada (18%) também está deprimida. Vol baixa depois de um tombo de 27% é o mercado dormindo.

GEX total negativo (−R$ 1,51 bi): os dealers estão vendidos em gamma agregado. O regime é de movimento acelerado — eles perseguem o preço (compram na alta, vendem na baixa), o que amplifica os movimentos em vez de amortecê-los. Combinação relevante: vol implícita no percentil 16 + dealers em gamma negativo = o mercado está cobrando pouco por um cenário em que a mecânica de hedge acelera qualquer choque. Um resultado ruim no ITR do 2T26 (agenda: 12/08/2026) encontra esse posicionamento.

Ímãs de gamma relevantes: R$ 18,89 (GEX −3.363 mm, o mais negativo — abaixo dali a instabilidade cresce), R$ 20,39 (−1.908 mm) e R$ 19,89 (+1.551 mm). O max pain de R$ 21,64 está 9,7% acima do spot — distante demais para exercer pinning real em 6 dias úteis; o vencimento de 17/07 não deve puxar o papel.

O PCR por OI de 1,24 está no percentil 80 — mais put que call em aberto, num nível historicamente alto. Há proteção comprada. Já o PCR por volume (1,66) está no percentil 30, ou seja, o fluxo do dia não é excepcionalmente defensivo; o que é alto é o estoque de puts. Vale notar a série: em 18–19/06 o PCR de volume bateu 10,15 e 9,45 — houve compra maciça e pontual de proteção há três semanas, e ela ainda está no livro.

9. Derivativos — Aluguel (BTB)

Leitura importante e contraintuitiva: a taxa de aluguel é 0,02% a.a. — percentil 1,5 do histórico, praticamente de graça. Isso não é um short squeeze em formação, apesar do short interest de 11,25% do free float parecer alto. Taxa zero com estoque de R$ 6,3 bi significa oferta abundante de doadores: o papel que está alugado serve majoritariamente a arbitragem e estruturas (caixa, box, financiamento de posição), não a aposta direcional de baixa. Um short direcional convicto pagaria taxa. Ninguém está pagando.

Ainda assim, days-to-cover de 16,8 dias é um número respeitável: se algo forçar a recompra, são quase 17 pregões de volume médio para desmontar. É pólvora seca, mas sem estopim visível. E a tendência desmente o alarme: estoque caiu 6,42% em 63 pregões — os shorts estão saindo, não entrando, mesmo com o papel caindo. Quem estava vendido no tombo já cobriu.

10. Liquidez & risco

Ordem (R$)% do ADTVClasse
10.0000,00%Operável
100.0000,02%Operável
500.0000,08%Operável
1.000.0000,16%Operável
5.000.0000,78%Operável

Quarto papel mais líquido da B3. Ordem de R$ 5 milhões consome 0,78% do ADTV. Liquidez não é restrição para nenhum tamanho de posição relevante de pessoa física ou fundo médio. O risco aqui não é sair — é estar.

11. Governança & CVM 44

Movimentação de insiders nos últimos 12 meses (apenas negócios a mercado): 7 trades — 4 compras, 3 vendas, todos irrelevantes em volume. A maior: Conselho de Administração comprando 7.900 ações em 14/08/2025. Vendas: 710 ações (Órgão Estatutário, 14/08/2025), 77 e 20 ações em outubro.

O sinal aqui é a ausência de sinal. Numa queda de 27% do topo, com o papel a 0,58x patrimônio, a administração do banco — que conhece a carteira de crédito por dentro — não comprou. Sete negócios em doze meses, o maior deles R$ ~150 mil. Nenhum diretor executivo aumentando posição relevante. Não é venda em pânico, o que seria pior; mas quem convive com a inadimplência do agro todos os dias não está aproveitando o "desconto". Registre isso ao lado da persistência de 87% do varejo no C6.

Partes relacionadas — o BB é estruturalmente entrelaçado com o controlador. Além do Plano Safra (R$ 58,0 bi de equalização em 2025/2026), há: FGTS como agente financeiro (spread garantido de até 2,16% a.a.), FGO com R$ 43,1 bi de saldo, contrato com os Correios de até R$ 2,31 bi por 60 meses (formalizado em 26/06/2026), e cessão de créditos ao Banco Votorantim (R$ 2,16 bi a 14,46% a.a., coligada). Nada disso é irregular. Todos são canais pelos quais a política pública entra no balanço do banco. É o preço do controle estatal — e uma razão legítima para o Ke ser mais alto que o dos pares privados.

Sinal de governança recente: a ata do Conselho de 30/06/2026 aprovou a revisão do Plano Diretor 2026/2030 e a reprogramação orçamentária, com abstenção da conselheira Selma Cristina Alves Siqueira na proposta de revisão das Despesas Administrativas. Abstenção registrada em ata sobre despesa é ruído em 9 de 10 casos. Neste, num banco reprogramando orçamento em meio a colapso de lucro, vale monitorar.

Adicionalmente, a ata de 21/05/2026 registra, no mesmo documento, eleição, destituição e renúncia de membros da Diretoria Executiva. Rotatividade na diretoria durante deterioração de resultado.

12. Fatos, agenda & notícias

DataEvento
09/07/2026Ata CA: revisão Plano Diretor 2026/2030 + reprogramação orçamentária
07/07/2026TPR Correios — até R$ 2,31 bi / 60 meses
03/07/2026BB anuncia R$ 210 bi para Safra 2026/2027
26/06/2026Repactuação do IHCD com Tesouro — saldo R$ 4,1 bi
24/06/2026Citi corta preço-alvo de bancos brasileiros
08/06/2026Apresentação institucional 1T26 — payout 30%
20/05/2026Fato Relevante: JCP 2T26 (R$ 340,7 mm)
13/05/2026ITR 1T26 — lucro −25,6% YoY

Agenda à frente: Informe CGVN em 31/07/2026 e — o evento que importa — ITR do 2º trimestre em 12/08/2026. É o balanço que confirma ou desmente a tese de recuperação. Todo o resto é ruído até lá.

Contexto de notícia relevante: o ICVA da Cielo mostrou queda real de 2,8% nas vendas do varejo em junho, pior desempenho para o período desde a pandemia (08/07/2026). Consumo fraco pressiona crédito PF — a segunda perna da carteira, além do agro.

13. Contexto macro

IndicadorValorData
Selic meta14,25%05/08/2026
CDI Over14,15%01/07/2026
DI 1 ano14,15%08/07/2026
Focus Selic (mediana)14,00%03/07/2026
Tesouro BR 10a14,605%09/07/2026
IPCA a/a4,72%mai/26
Focus IPCA5,30%03/07/2026
USD/BRL5,132909/07/2026
CDS Brasil 5Y126,89 bps09/07/2026
Dívida bruta / PIB81,07%mai/26
Desemprego5,6%mai/26
US Treasury 10a4,56%08/07/2026
Spread BR−EUA 10a10,05 pp09/07/2026

Selic a 14,25% com Focus projetando 14,00% — o ciclo de alívio esperado é curto e raso. Isso corta dos dois lados para o BB. A favor: juro alto sustenta margem financeira e receita de tesouraria (a receita cresceu 16,8% em 2025 e +9,4% no 1T26 — o banco não tem problema de receita). Contra: juro alto a 14% por tempo prolongado é exatamente o que quebra o produtor rural alavancado e o consumidor PF — e provisão come a margem antes que ela vire lucro.

Segundo: com CDI a 14,15%, o custo de oportunidade do acionista é brutal. Um DY de 4,1% projetado precisa de 10 pontos percentuais de valorização ao ano só para empatar com renda fixa soberana. Terceiro: dívida bruta/PIB em 81,07% e subindo (+0,88 pp no mês) mantém o prêmio de risco fiscal — e o BB, como braço de política pública do Tesouro, é o ativo listado com maior sensibilidade a esse prêmio.

14. Síntese — teses e opiniões

A tese de compra (o caso otimista, honestamente construído)

  1. Provisão é antecipação, não perda realizada. Quando o ciclo do agro virar, a reversão de provisão volta como lucro. O banco não perdeu franquia, base de clientes nem receita — a receita cresceu 16,8% em 2025. O que travou foi o resultado abaixo da linha.
  2. 0,58x patrimônio é piso histórico para um banco com R$ 2,45 tri de ativo e a maior carteira de crédito rural do país.
  3. Assimetria pela matemática do Gordon: se o ROE volta a 14% (média histórica é 16,7%), o valor justo vai a R$ 24,34 — upside de 22%. Se volta a 16%, R$ 30,07 — upside de 50%. O downside já está parcialmente no preço.
  4. Vol implícita no percentil 16. Se a tese é direcional e assimétrica, comprar prêmio de opção custa historicamente pouco. É a forma tecnicamente correta de expressar essa visão com risco definido.
  5. O short está saindo (estoque −6,42% em 63 pregões, taxa 0,02%). Não há pressão vendida estrutural contra o papel.

A tese de venda (e por que ela pesa mais hoje)

  1. O lucro ainda está caindo. Esta é a objeção que anula quase tudo acima. 1T26: −25,6% YoY. Não há inflexão nos números — só no preço, entre janeiro e fevereiro, e o mercado já a devolveu. Comprar aqui é comprar antes da evidência, não depois.
  2. O valor justo no ROE de hoje é R$ 7,16. Aos R$ 20,00 não existe margem de segurança contra o cenário de estagnação — só contra o cenário de recuperação plena. Se o ROE se estabilizar em 10% (e não 14%), o justo é R$ 12,89: −36% do preço atual. O cenário mediano já é destrutivo.
  3. Quem sabe mais está vendendo. Citi, Merrill, JP Morgan, Goldman e Morgan somam −R$ 2,08 bi líquidos em 63 pregões, com persistência de 27%–41% (vendendo na maioria dos dias). Do outro lado, C6 (87,3%), Nu Invest (81%) e Inter (76,2%) — varejo pulverizado comprando com persistência quase mecânica. E a administração do banco, que enxerga a carteira por dentro, não comprou uma única posição relevante em 12 meses.
  4. A tese de dividendo morreu e muita gente não percebeu. DY de 5,51% contra CDI de 14,15%. O JCP do 1T26 foi 76% menor que o do 1T25. Payout cortado para 30%. Quem carrega BBAS3 "pela renda" está aceitando um terço do CDI para correr beta 1,23.
  5. Risco de controlador é permanente, não cíclico. R$ 210 bi comprometidos com a Safra 2026/2027 — a mesma carteira que gerou o provisionamento. O acionista minoritário não vota na política de crédito, mas paga por ela. Este é o motivo estrutural pelo qual o BB negocia com desconto e sempre negociará: não é ineficiência de mercado, é precificação correta de um custo de capital mais alto.
  6. GEX negativo + vol no percentil 16 + ITR em 12/08. Se o 2T26 decepcionar, os dealers vendidos em gamma amplificam a queda, e a proteção está barata justamente porque ninguém está posicionado para isso. Assimetria de curto prazo contra quem está comprado sem hedge.

Opinião do analista

Se eu tivesse que escrever a recomendação de uma linha: BBAS3 é um NEUTRO com viés negativo enquanto o ROE não virar, e não é — sob nenhuma leitura defensável — uma posição de renda.

O erro de enquadramento que vejo o mercado cometendo é tratar o BB de 2026 com a régua do BB de 2023. Naquele banco, 0,58x patrimônio seria uma barganha histórica, porque o ROE era 19,1% e o DY era de dois dígitos. Este banco entrega 7,98% de ROE, paga menos de um terço do CDI e ainda está com o lucro em queda. O múltiplo baixo não é o mercado errando — é o mercado precificando exatamente o que está no balanço, e ainda dando o benefício da dúvida sobre a recuperação.

O que efetivamente inverteria minha leitura: o ITR do 2T26, em 12/08. Não a receita (que cresce), não a narrativa. Especificamente: (a) queda no custo de provisão trimestral, (b) ROE anualizado voltando acima de 10%, (c) sinal de estabilização da inadimplência do agro. Dois desses três, e a tese de compra sai do papel e entra no balanço — e aí o P/VP de 0,58x vira, aí sim, assimetria real.

Até lá, o posicionamento que faz sentido técnico não é ação comprada. É opção: com IV rank em 10,63 e prêmio de 5,86 pp sobre a realizada, quem quer a assimetria de alta paga barato por ela e limita o risco a um prêmio conhecido — em vez de carregar 5,73 bilhões de ações de um banco cuja rentabilidade está em queda livre, torcendo pelo agro. E quem já está comprado no papel e não quer sair antes do balanço: a proteção também nunca esteve tão barata.


Estimativas de valor justo obtidas por modelo de Gordon patrimonial com premissas explícitas (VPA R$ 34,36 · Ke 17,5% · g 5,5%), apresentadas com tabela de sensibilidade. Não constituem recomendação de investimento. DCF de fluxo de caixa livre não é aplicável a instituição financeira. Dados de balanço da CVM (DFP/ITR consolidado); preços, fluxo, opções e aluguel da B3 (EOD); macro do BCB. Posição de fluxo por corretora é acúmulo líquido EOD, não tape ao vivo.