ASAI3 — Sendas (Assaí): o que a ATIVA está enxergando
ATIVA acumulou +R$368M em 6 semanas absorvendo a venda dos estrangeiros, enquanto a alavancagem cai para o menor nível desde 2021 e o saldo de aluguel dispara.
ASAI3 — Sendas (Assaí): o que a ATIVA está enxergando
A empresa
Sendas Distribuidora S.A. (Assaí) é a segunda maior operadora de atacarejo do Brasil, modelo cash & carry que atende do pequeno transformador ao consumidor final. Listada no Novo Mercado desde out/2021 após o spin-off do GPA, virou uma corporation de capital pulverizado (free float ~70%) depois da saída integral do Casino em 2023. O comando segue com Belmiro Gomes (CEO e DRI). São 313 lojas em operação ao fim do 1T26, com plano de ~10 aberturas/ano e capex de R$ 1,0–1,2 bi. CNPJ 06.057.223/0001-71; 1,342 bilhão de ações ordinárias.
Resultados e balanço
2025 foi o ano da disciplina financeira. A companhia entregou a meta de desalavancagem com folga e o mercado premiou: a ação subiu quase 29% no acumulado do ano até a divulgação do 4T25, antes de devolver parte com o 1T26.
| Indicador | 2025 (ano) | 1T26 | Comentário |
|---|---|---|---|
| Receita líquida | R$ 77,3 bi (+4,7%) | R$ 18,64 bi (+0,5%) | Crescimento freado pela deflação dos básicos |
| Receita bruta | R$ 84,7 bi (+5,2%) | R$ 20,6 bi (+1,7%) | — |
| EBITDA ajustado | R$ 4,5 bi (margem 5,8%) | R$ 1,025 bi (margem 5,5%) | 1T26 abaixo do consenso (R$ 1,39 bi) |
| Lucro líquido reportado | R$ 699 mi | R$ 86 mi (-46,7%) | 1T26 mexido por créditos de PIS/Cofins |
| Lucro recorrente | R$ 847 mi (aj.) | R$ 174 mi (+7,3%) | Operação mais sadia do que a manchete |
| Resultado financeiro | — | -R$ 564 mi (3,0% da ROL) | O grande vilão: CDI médio 3,37% no tri |
| Dívida líquida | ~R$ 11,3 bi | R$ 11,5 bi | Redução de R$ 1,2 bi no ano |
| Dív. Líq./EBITDA | 2,56x | 2,52x | Menor desde o fim de 2021 |
| Geração de caixa livre | R$ 2,8 bi | — | Conversão de 84% do EBITDA |
| Vendas mesmas lojas | — | -0,9% | Deflação de ~12% em arroz, feijão, açúcar |
A leitura: o motor operacional gira em marcha lenta — consumidor de baixa renda endividado, deflação nos itens essenciais e até o efeito estrutural dos emagrecedores GLP-1 sobre a cesta calórica (tese levantada pelo Itaú BBA). Em compensação, a história de balanço funcionou: dívida caindo, caixa de R$ 7,5 bi disponível e o financeiro como o único item realmente machucando o lucro. É exatamente o tipo de empresa cujo lucro responde rápido quando o juro vira.
Fluxo — o coração do estudo
Aqui mora o sinal mais forte. Mapeando a corretora compradora e vendedora trade a trade na B3, o quadro das últimas seis semanas (15/abr a 01/jun) é inequívoco:
| Corretora | Saldo líquido (R$) | Ações (líq.) | Lado |
|---|---|---|---|
| Ativa | +368,3 mi | +41,3 mi | Maior ACUMULADOR |
| Morgan Stanley | -109,6 mi | -12,8 mi | Maior distribuidor |
| BTG | -65,6 mi | -7,1 mi | Distribuição |
| UBS | -55,7 mi | -6,6 mi | Distribuição |
| Goldman Sachs | -45,3 mi | -4,8 mi | Distribuição |
| Itaú | -33,7 mi | -3,8 mi | Distribuição |
| XP | +33,9 mi | +4,1 mi | Acumulação (varejo) |
Só na última semana (26/mai a 01/jun) a Ativa concentrou 48% de todo o volume do papel e respondeu por 43% de toda a ponta compradora, com saldo de +R$ 300 milhões num único intervalo de cinco pregões. O preço médio de compra da casa ficou em ~R$ 8,93. Não é fluxo de varejo pulverizado: é acumulação concentrada, paciente, comprando contra a saída coordenada das tesourarias estrangeiras. Quando uma única corretora absorve metade do book de uma ação do Ibovespa por semanas seguidas, normalmente há um mandato grande por trás — um fundo montando posição relevante, uma recompra estruturada ou um movimento societário em formação.
Aluguel de ações (BTB)
O saldo de aluguel — proxy de posição vendida — saltou de 62,4 milhões para 81,0 milhões de ações em uma única semana (+30%), equivalente a ~R$ 714 milhões a preço médio de R$ 8,79.
| Data | Saldo (ações) | Saldo (R$) |
|---|---|---|
| 26/05 | 62,4 mi | R$ 541,6 mi |
| 27/05 | 64,3 mi | R$ 559,7 mi |
| 28/05 | 69,0 mi | R$ 607,7 mi |
| 29/05 | 76,4 mi | R$ 674,7 mi |
| 01/06 | 81,0 mi | R$ 713,7 mi |
Essa combinação é a parte mais interessante do caso: short subindo forte ao mesmo tempo em que uma mão única acumula com agressividade. São duas leituras possíveis sobre a mesma mesa — uma estrutura que pode virar combustível de squeeze se o preço reagir, ou um teto pesado caso os vendidos estejam certos. O dado fica registrado para acompanhamento.
Opções e termo
No vencimento de junho/26, a estrutura aponta resistência (call wall) em R$ 9,40, suporte (put wall) entre R$ 8,50 e R$ 9,10 e max pain em R$ 9,40–9,50 — ou seja, o ponto de menor dor para os lançadores está acima do preço atual. Em mercados de pinning, isso costuma exercer uma leve atração do preço para a faixa de R$ 9,40 até o vencimento. O mercado a termo é irrelevante (~3,2 mi de ações, R$ 31 mi). Há ainda volume expressivo de puts em aberto em strikes baixos (séries 8,50/8,10), proteção típica de carteira.
Quem carrega o papel
São 146 fundos com posição em ASAI3. O destaque isolado é o Snapper Rocks (gestão BTG Pactual), com ~144,7 milhões de ações (R$ 1,28 bi) — uma posição relevante para uma única estratégia. O restante é dominado por indexados (iShares Ibovespa e Small Cap, IT Now) e alguns ativos (Absolute Pace, Previ). Do lado de dentro de casa, os insiders foram compradores líquidos no último ano (quatro compras contra uma venda), com destaque para uma aquisição de 135 mil ações (~R$ 1,27 mi) em abril/26.
Pano de fundo macro
| Indicador | Atual | Leitura para ASAI3 |
|---|---|---|
| Selic meta | 14,50% (COPOM 17/06) | Peso máximo — empresa alavancada |
| Focus Selic (fim de 2026) | 13,25% | Corte à frente = alívio direto |
| CDI | 14,40% | Encarece o financeiro (-R$ 564 mi/tri) |
| IPCA a/a | 4,39% | Inflação contida; básicos em deflação |
| Desemprego | 5,8% | Mercado de trabalho forte sustenta volume |
| Dólar (PTAX) | R$ 5,03 | Neutro para o case doméstico |
O resumo macro é quase uma alavanca de um botão só: o juro. Assaí é uma operação de margem fina e dívida relevante, então cada ponto de Selic pesa direto no resultado financeiro — e o financeiro é justamente o que está comendo o lucro hoje. O mesmo mecanismo joga a favor no caminho inverso: se o ciclo de corte projetado no Focus se materializar no segundo semestre, o alívio cai diretamente no lucro e na taxa de desconto que o mercado aplica ao papel.
Onde o papel negocia
Aos preços atuais, ASAI3 é avaliada em ~5,2x EV/EBITDA e 13,9x lucro ajustado, com dívida líquida de R$ 11,5 bi sobre 1,342 bilhão de ações. São múltiplos comprimidos frente ao próprio histórico da companhia desde o IPO, refletindo o ambiente de juro alto e a desaceleração das vendas. O caso de reprecificação, quando discutido pelo mercado, gira muito mais em torno da curva de juros do que da operação em si — um corte de Selic tende a aliviar tanto o resultado financeiro quanto a taxa de desconto aplicada ao fluxo de caixa.
Estudo elaborado com dados de CVM, B3 e RI da companhia via Trade Hunter. Conteúdo de caráter analítico e educacional, não constitui recomendação individualizada de investimento na forma da Resolução CVM 178. Decisões são de responsabilidade do investidor.